Nova caverna é descoberta por exploradores no nordeste de Goiás após três anos de buscas
Os entusiastas do turismo de aventura e da natureza podem em breve contar com um destino completamente inédito para explorar no estado de Goiás. A aproximadamente 40 quilômetros da divisa com a Bahia, no coração do nordeste goiano, uma caverna até então desconhecida foi revelada após um meticuloso trabalho de investigação.
Batizada informalmente como "Gruta do Vale", esta maravilha natural emergiu da densa vegetação da região, representando uma conquista significativa para a espeleologia brasileira. A descoberta é fruto de três anos dedicados de estudos e mapeamento minucioso da área por uma equipe de exploradores independentes.
Localização e processo de descoberta
Situada no Vale do Rio Água Quente, entre os municípios de Posse e Guarani de Goiás, a caverna foi finalmente encontrada no dia 15 de janeiro. O grupo responsável pela façanha é liderado pelo sargento bombeiro militar e condutor turístico Rafael Sant'Ana, de 42 anos, acompanhado pelos exploradores Soli Trindade e o fotógrafo William Magalhães.
Em entrevista, Rafael relatou que o primeiro indício surgiu em 2023, durante uma visita a uma cachoeira local. Utilizando uma câmera fotográfica com lentes de longo alcance, avistaram ao longe uma fratura na rocha que despertou suspeitas. "A gente falou: 'olha, pode ser uma caverna, tem uma fratura ali'", recordou o explorador.
Após essa observação inicial, o grupo obteve a autorização necessária do proprietário da terra e iniciou uma jornada de investigação mais aprofundada. Equipados com drones de alta resolução e outros aparatos adequados, percorreram o vale até se depararem com a entrada da caverna.
Rafael descreve o desafio: "Descobrimos que o primeiro ponto a que nós chegamos tinha sido a 1 km de distância da caverna. A vegetação é muito, muito, muito fechada. E no alto de um vale muito íngreme".
Primeiras aproximações e planos futuros
Os exploradores conseguiram se aproximar a cerca de 20 a 30 metros da entrada da caverna, mas não adentraram por falta dos equipamentos de segurança necessários. "Eu acho que vai ter uma trilhinha até lá. Só na hora mesmo que a gente vai descobrir", comentou Rafael, que planeja realizar a primeira incursão interna na última semana de janeiro.
A convicção de que se trata de uma caverna inexplorada baseia-se em dois fatores principais:
- Ausência de qualquer placa de identificação metálica do Cecav (Centro Especializado voltado ao Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas), que costuma marcar cavernas conhecidas.
- Nenhum morador local ou proprietário tinha conhecimento prévio da existência da formação.
Rafael, que atua há mais de uma década como condutor no Parque Terra Ronca, enfatiza a importância do cadastramento formal. A intenção é inserir os dados da Gruta do Vale no Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas (Canie), sistema público gerido pelo ICMBio.
Contexto espeleológico e regulamentação
Jocy Cruz, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas do ICMBio, explicou o processo de cadastramento. "Esse cadastro é público. Qualquer pessoa pode cadastrar uma caverna lá, desde que tenha os dados mínimos necessários", afirmou.
Segundo ele, o Brasil possui atualmente cerca de 3.360 cavernas registradas. A nomeação dessas formações segue diretrizes da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), que recomenda utilizar nomes relacionados à localidade, como fazendas, acidentes geográficos ou características marcantes da região.
Potencial turístico e desenvolvimento regional
A descoberta da Gruta do Vale surge como uma oportunidade valiosa para impulsionar o ecoturismo nos municípios de Posse e Guarani de Goiás. Rafael Sant'Ana expressa seu entusiasmo: "A gente desviou o olhar, está focando na nossa região. A gente está entre Mambaí e Terra Ronca, que são duas grandes referências em cavernas e cachoeiras. Só que a gente tem as mesmas belezas, mas desconhecidas".
O objetivo do grupo de exploradores é mapear sistematicamente o potencial turístico da área e fornecer esses dados ao poder público, contribuindo para o desenvolvimento sustentável da região.
Toquinho Moreira, secretário de Turismo de Guarani de Goiás, reconhece que o turismo local ainda está em fase de amadurecimento. "Guarani, por exemplo, começou a investir no setor há dois anos", admitiu, destacando que a região já abriga atrações consolidadas como o Parque Terra Ronca, considerado o maior parque de cavernas da América Latina.
A descoberta desta nova caverna se soma a um conjunto de atrativos naturais que incluem três cachoeiras já frequentadas por turistas. "Quanto mais a gente consegue atrativos, mais temos visitantes. A cada dia que a gente descobre mais um local, ele se torna uma opção a mais para os turistas", concluiu o secretário, otimista com as perspectivas de crescimento do turismo de aventura na região nordeste de Goiás.