Tata Tancredo: O Papa Negro da Umbanda que Criou o Réveillon de Copacabana
Tata Tancredo: O Criador do Réveillon de Copacabana

A Origem Religiosa do Maior Réveillon do Mundo

Iemanjá, uma das divindades mais reverenciadas nas religiões de matriz africana como o candomblé e a umbanda, é conhecida como rainha do mar e deusa da fertilidade, maternidade e proteção. Originária da mitologia iorubá, sua celebração em 2 de fevereiro exemplifica o sincretismo religioso brasileiro, coincidindo com a veneração católica de Nossa Senhora dos Navegantes. Porém, foi a apropriação dessa data que resultou na criação de uma das maiores festas populares do Brasil: o Réveillon de Copacabana.

O Visionário por Trás da Tradição

Tancredo da Silva Pinto (1904-1979), nascido em Cantagalo e conhecido como Tata Tancredo ou "o papa negro da umbanda", foi uma das mais importantes lideranças umbandistas do século XX. O título "Tata", pronunciado como "Tatá", designa sacerdotes ou líderes em linhagens religiosas de matriz banto. Sua trajetória voltou à evidência recentemente quando lideranças de religiões afro criticaram a inclusão de um palco gospel no Réveillon carioca, cobrando coerência histórica com as origens da festa.

As Flores de Iemanjá e a Transformação Cultural

Na virada do ano de 1949 para 1950, mobilizados por Tata Tancredo, um pequeno grupo de praticantes de umbanda foi até a praia de Copacabana vestindo branco, saudando Iemanjá e levando oferendas para serem lançadas ao mar. Este evento, chamado Flores de Iemanjá, marcou o início de uma tradição que cresceria exponencialmente. "A ligação do Réveillon de Copacabana com a atuação cultural, religiosa e política de Tancredo da Silva Pinto é notória", afirma o historiador Diego Uchoa de Amorim, que estuda sua trajetória há quase dez anos.

Amorim explica que, embora o costume de levar oferendas ao mar já existisse no Rio desde o século XIX, o grande mérito de Tancredo foi "a idealização e articulação das Flores de Iemanjá na orla de Copacabana, principalmente nas décadas de 1950 e 1960". Ele mobilizou terreiros de toda a cidade e até de outros estados, gradualmente transformando uma celebração religiosa em uma festa plural que hoje atrai milhões.

Luta pela Liberdade Religiosa e Reconhecimento

Tancredo nasceu em uma família de ex-escravizados que praticavam ritos de matriz africana. Mudou-se para o Rio ainda jovem e tornou-se fundamental na consolidação da umbanda como religião, em um contexto de repressão estatal. O Código Penal de 1890 criminalizava "práticas de espiritismo, magia e seus sortilégios", e mesmo após a Constituição de 1946 garantir liberdade religiosa, a intolerância persistia.

"Tancredo foi sem dúvidas um dos nomes mais importantes na luta pela liberdade religiosa no Brasil do pós-abolição", destaca Amorim. Ele articulou, fundou e integrou diversas associações e federações umbandistas, buscando amparo jurídico e político enquanto combatia o estigma social. A festa do Réveillon era, em seus primórdios, uma maneira de levar os rituais para além dos terreiros e visibilizá-los perante a sociedade.

Contribuições Além do Religioso

Sua atuação não se limitou à esfera religiosa. Tancredo foi compositor de sambas e um dos fundadores da Federação Brasileira das Escolas de Samba em 1947. Morando no morro de São Carlos, no Estácio - considerado o berço do samba moderno -, ele fazia parte do grupo "os bambas do Estácio". Compôs, em parceria com Sátiro de Melo e José Alcides, o samba-marcha General da Banda, grande sucesso do Carnaval de 1950.

"As encruzilhadas entre o samba, a política e a religiosidade marcaram a trajetória de Tata Tancredo", observa Amorim. Parte da arrecadação dos direitos autorais da música foi investida na criação da Confederação Espírita Umbandista em 1950.

Legado e Controvérsias Contemporâneas

O Réveillon do Rio é considerado pelo Guinness World Records como o maior do mundo, movimentando mais de cinco milhões de pessoas. "Podemos afirmar sim que o Réveillon mais famoso do mundo está intimamente ligado às ocupações do espaço público pelos povos de axé e contou com o protagonismo de Tancredo", ressalta Amorim.

Recentemente, controvérsias surgiram quando a prefeitura incluiu um palco gospel no Réveillon. Lideranças afro criticaram a medida, citando a trajetória de Tancredo. O prefeito Eduardo Paes respondeu às críticas prometendo dialogar com lideranças e viabilizar uma estátua em homenagem a Tancredo no Rio.

"Tancredo não só defendeu uma umbanda negra, como foi o visionário nas estratégias de crescimento, difusão e popularização do culto", afirma o sociólogo e babalorixá Rodney William Eugênio. "Ele fez história e o Réveillon brasileiro tornou-se o que é hoje - uma mistura de festa, espiritualidade e misticismo - em razão de sua coragem."

Homenagem no Carnaval

Neste Carnaval, Tata Tancredo será homenageado pela escola de samba Estácio de Sá, da série ouro, com o enredo Tata Tancredo - O Papa Negro no Terreiro do Estácio. Amorim está envolvido na construção do enredo desde sua concepção, garantindo que a história deste importante líder religioso e cultural continue sendo contada e celebrada.

"A história do Brasil deve ainda muitas páginas à Tata Tancredo", afirma a jornalista e cientista da religião Claudia Alexandre, destacando sua atuação política, cultural e religiosa no combate à intolerância religiosa, ao racismo religioso e ao embranquecimento das religiões de matriz africana.