Compositor Alcino Alves desvenda a origem da música 'As Andorinhas', gravada pelo Trio Parada Dura
A revoada das andorinhas em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, não é apenas um fenômeno natural, mas a inspiração por trás de um dos maiores sucessos da música sertaneja brasileira. A composição 'As Andorinhas', gravada pelo Trio Parada Dura em 1985, nasceu da observação do compositor Alcino Alves, hoje com 73 anos, durante uma parada na cidade. Nesta quinta-feira (19), o município celebra 174 anos de emancipação, reforçando seu legado cultural.
Uma viagem que virou canção
Em 1985, Alcino Alves viajava de Londrina, no Paraná, para Uberlândia, em Minas Gerais, num trajeto de 675 quilômetros que durava cerca de nove horas. Cansado, ele decidiu pernoitar em São José do Rio Preto. Ao chegar a uma praça central, deparou-se com uma cena marcante: milhares de andorinhas formando um funil no céu ao anoitecer, descendo para dormir nas árvores. "Achei aquilo fantástico", relembra o artista, que conversou com moradores locais sobre o comportamento migratório das aves, originárias do Canadá.
Inspirado, Alcino escreveu as primeiras frases da música no hotel onde estava hospedado: "As andorinhas voltaram e eu também voltei a pousar no velho ninho, que um dia aqui deixei". Ele completou a composição ao retornar a Londrina, com participação de Rossi e Rosa Quadros. A canção rapidamente se tornou um hit nacional, consolidando o Trio Parada Dura no cenário musical.
São José do Rio Preto: da capital sertaneja à cidade das andorinhas
O historiador Fernando Marques, de 65 anos, destaca que Rio Preto foi por décadas conhecida como a capital da música sertaneja, berço de artistas como Cascatinha, Vieira, Zé do Cedro e Zé do Rancho. Nos anos 1970, a cidade ganhou o apelido de "cidade presépio" devido a uma tradição montada pelo bispo Dom Lafayette Libânio, que desapareceu após sua morte em 1979.
Posteriormente, as andorinhas que habitavam Mirassol migraram para as praças Dom José Marcondes e Rui Barbosa em Rio Preto. "O balé aéreo das andorinhas era maravilhoso e atraía multidões", explica Marques. No entanto, a presença das aves causou problemas, com fezes sujando praças, veículos e áreas públicas, gerando reclamações de comerciantes e moradores.
A situação só foi resolvida quando o biólogo Luiz Dino Vizotto descobriu que as andorinhas evitavam uma certa coloração de luz, instalada nas árvores das praças, fazendo-as migrar definitivamente.
O legado cultural: do Homem-Andorinha às revistas em quadrinhos
Além da música, as andorinhas inspiraram a criação do Homem-Andorinha, um super-herói local. O jornalista Vicente Serroni, de 73 anos, fundou em 2003 o bar Gibeer, temático em quadrinhos, e desenvolveu a personagem com o artista plástico Miguelavo (Furtado Sales). Foram lançadas seis revistas artesanais, onde o Homem-Andorinha resolvia problemas da cidade, atraindo leitores de todas as idades.
"Nas revistas, o Homem-Andorinha salvava e ajudava a resolver questões que preocupavam a população", conta Serroni. Miguelavo faleceu em dezembro de 2023, mas sua obra permanece como parte do rico acervo cultural rio-pretense.
Celebrando 174 anos de história
São José do Rio Preto, ao completar 174 anos, reforça sua identidade marcada pela música, natureza e criatividade. A história de 'As Andorinhas' simboliza como momentos simples podem se transformar em patrimônio artístico, ecoando na memória coletiva e nas tradições que definem a cidade.



