Barolo Boys: A Revolução que Salvou o Rei dos Vinhos Italianos da Obsolescência
No norte da Itália, do alto do Brico Bastia, a 570 metros de altitude em Monforte d'Alba, a vista é de 360 graus. À frente, o Monviso, a mais alta montanha dos Alpes Cócios, desenha uma muralha branca no inverno e delimita a fronteira com a França. Atrás, fica a Alta Langa e, a uma hora dali, o mar. "Estamos no meio", disse à coluna AL VINO Elisa Conterno Fantino, descendente de uma das famílias mais tradicionais de produtores do Barolo, o rei dos vinhos italianos. "As montanhas nos protegem do ar frio, mas temos a influência marítima. É um microclima perfeito para a Nebbiolo", completou ela, referindo-se à uva com a qual é produzido o Barolo.
O Cenário de uma Transformação Histórica
Foi nesse cenário, visitado pela coluna AL VINO no início de fevereiro, que nasceu o movimento que mudou não apenas a história do Barolo, mas o destino de toda a região do Langhe. Estamos falando dos Barolo Boys. Hoje, o Barolo é um dos vinhos mais cobiçados da Itália. As garrafas de safras mais especiais chegam ao Brasil custando mais de 10 mil reais. São cerca de 2 mil hectares de vinhas de Nebbiolo distribuídos por 11 comunas e mais de 350 vinicultores, com uma produção anual que chega a 14 milhões de garrafas — o dobro do que se fazia nos anos 1990.
Nem sempre a colheita foi de fartura. Segundo Elisa, houve um tempo em que "dávamos Barolo de presente para quem comprava Dolcetto". Dá para imaginar uma época em que um Barolo servia de troco para quem comprasse um simples vinho italiano de mesa? O início da história do Barolo foi glorioso e nada parecia indicar que um dia ele poderia perder a realeza. No século XIX, ele ganhou a alcunha que o consagraria para sempre: "il vino dei re, il re dei vini". Foi quando o tinto do Langhe passou a frequentar a corte da Casa de Savoia, graças ao entusiasmo da marquesa Giulia Colbert Falletti e ao apoio do estadista Camillo Benso, o Conde de Cavour, tornando-se o predileto do rei Carlo Alberto di Savoia e símbolo máximo da nobreza piemontesa.
A Queda e a Revolução dos Barolo Boys
Toda essa fama começou a virar vinagre na metade final do século XX, quando o mercado não queria saber de um tinto austero, tânico, que precisava de décadas para amaciar. Com as transformações da gastronomia, poucos tinham a paciência de esperar três horas no restaurante um vinho como o Barolo, até ele ser aberto, colocado no decanter e ficar pronto para o consumo. Com isso, o rei dos vinhos foi perdendo a majestade. Se não bastasse, a região onde o Barolo é produzido estava empobrecida após a Segunda Guerra Mundial. Muitos abandonaram as colinas rumo a Turim (e à Fiat), ou embarcaram em navios rumo a novos horizontes na América. Ficar na piemontesa Langhe era quase um ato de resistência.
Foi nesse contexto que, nos anos 1980, um grupo de jovens produtores decidiu mudar o rumo da história. Entre eles estavam nomes como Elio Altare, Domenico Clerico, Roberto Voerzio, Giorgio Rivetti e Guido Fantino, o pai de Elisa, a simpática anfitriã da coluna AL VINO na visita à região. No trabalho que mudou para sempre a história do vinho, os Barolo Boys viajaram à Borgonha, observaram o uso de barricas francesas, reduziram o tempo de maceração (período que o líquido permanece em contato com as cascas e sementes para extrair cor, aromas e taninos) e passaram a buscar mais fruta, mais acessibilidade, mais precisão. "Meu pai usava 100% de barrica nova francesa no Barolo", contou Elisa. "No começo, o vinho ficou quase imbebível. Mas eles foram aprendendo."
Heresia que se Tornou Estratégia de Internacionalização
O que parecia heresia para os tradicionalistas — que defendiam macerações de 30 ou 40 dias e grandes bottis eslovenos — revelou-se uma estratégia de internacionalização. Em vez daqueles grandes barris, o processo passou a ser feito em recipientes menores. Os novos Barolos eram mais polidos, mais sedutores na juventude e, sobretudo, mais compreensíveis aos olhos e ao paladar do mundo. Mas foi um escândalo! A imagem da radical mudança foi eternizada no documentário "Barolo Boys, the story of a revolution", de 2014, na icônica cena em que Elio Altare surge atacando um botti com uma motosserra de forma a enfatizar de forma barulhenta o rompimento com o passado. A rebeldia custou caro: depois disso, Elio foi deserdado da herança familiar e nunca mais trocou uma palavra com seu pai.
Mais do que uma revolução enológica, foi uma revolução de mentalidade. Os produtores se reuniam semanalmente para provar vinhos juntos. A meta não era promover uma marca, mas o território. "A ideia era divulgar as coisas do Langhe, não o trabalho de um produtor sozinho", lembrou Elisa. Uma das empresas que nasceu dentro desse espírito foi a Conterno Fantino. Ela surgiu em 1982 pelas mãos de Claudio Conterno e Guido Fantino. Com cinco hectares históricos em Ginestra herdados da família e aquisições feitas quando a terra ainda era acessível, a vinícola consolidou-se como uma das referências do chamado estilo moderno do Barolo.
O Legado e a Adaptação Contínua
Hoje são 27 hectares (20 próprios e 7 arrendados) e cerca de 160 mil garrafas anuais. Quatro Barolos de vinhedo único — entre eles Sorì Ginestra, Vigna del Gris, Mosconi e Castelletto — traduzem a diversidade de exposições e solos da região. A importadora Tanyno é a responsável por fazer chegar a solos brasileiros os três primeiros Barolos mencionados acima, por cerca de R$ 1.000, e um Barbera (R$ 260). Tive a oportunidade de degustar todos eles em visita guiada por Elisa. É impressionante como se percebe a nuance de cada vinhedo e como os vinhos estão elegantemente prontos para serem aproveitados.
O tempo trouxe ajustes. A partir de 2003, com a mudança climática evidente e safras mais quentes, a nova geração reduziu o uso de madeira nova para cerca de 30% e reintroduziu o cimento para vinificações mais delicadas. "Não mudamos o estilo, adaptamos o modo de fazer vinho", explicou Elisa. "A nova geração busca Barolos mais leves, mais frutados, o que não diminui a qualidade do vinho." Outro legado indireto dos Barolo Boys é a consolidação da figura do produtor independente. A Conterno Fantino integra a Federazione Italiana Vignaioli Indipendenti (FIVI), que reúne viticultores que cultivam, vinificam e engarrafam exclusivamente suas próprias uvas. "Depois do rótulo está o nosso rosto", disse a esta colunista Pietro Monti, proprietário e enólogo da Roccasanta e vice-presidente da federação.
Preservação do Território e Visão Coletiva
Em uma região competitiva e de preços hoje proibitivos — um hectare pode ultrapassar 2 milhões de euros — manter a identidade e o cuidado artesanal tornou-se também uma forma de preservar o território. Assim, juntas, as famílias evitam a compra desses vinhedos por investidores internacionais que vivem rondando a área. Na FIVI os viticultores adotam um comportamento totalmente oposto ao das cooperativas, que compram uvas pagando pouco aos agricultores, ou dos "imbottigliatoris", engarrafadores que compram o vinho para mesclar ou produzir um rótulo para supermercados a preços muito mais baixos, por exemplo.
Apesar do sucesso, os Barolo Boys foram muito criticados por "modernizar demais" o vinho. Mas, olhando em retrospecto, sua maior contribuição talvez não tenha sido a introdução de novas técnicas e, sim, a visão coletiva. Eles entenderam que o futuro do Langhe dependia de qualidade consistente, cooperação estratégica e presença global. Em duas décadas, transformaram um vinho que era oferecido como brinde na compra de um rótulo popular em um ícone global. Quando saí na estrutura de vidro da vinícola que me coloca sobre os vinhedos de Nebbiolo e pude sentir a brisa gélida do Monviso, do alto do Brico Bastia, ficou claro para mim que a revolução dos anos 1980 não apagou a tradição — ela a salvou. E, ao fazer isso, projetou o Barolo para o mundo.
