Há mais de duas décadas, a feijoada se tornou um elemento fundamental na rotina das quadras das escolas de samba do Rio de Janeiro. Essa tradição deliciosa e culturalmente rica começou na Portela no ano de 2003 e, desde então, se espalhou por diversas outras agremiações, criando um fenômeno que combina roda de samba, gastronomia típica e uma importante fonte de renda para as comunidades locais.
Uma tradição que alimenta milhares
Foi com uma feijoada completa que as doze agremiações do Grupo Especial do Rio se reuniram recentemente para o Apoteose do Samba, programa exibido pela TV Globo que revela os bastidores do carnaval. A edição deste ano, com o tema “Gente que faz”, teve seu primeiro episódio transmitido no sábado, dia 31, destacando justamente essas iniciativas que sustentam a cultura do samba.
O coração da tradição na Portela
Na quadra da Portela, localizada na Rua Clara Nunes, a feijoada acontece religiosamente no primeiro sábado de cada mês. O aroma irresistível do feijão cozido invade as redondezas, anunciando a festa que se aproxima. A preparação começa nas primeiras horas da manhã, envolvendo panelões gigantes capazes de alimentar milhares de pessoas.
De acordo com a cozinheira Graciana, que trabalha no local há dez anos, cada edição do evento consome aproximadamente:
- 30 quilos de feijão
- 30 quilos de arroz
- Além de generosas quantidades de carnes, couve e laranjas
Graciana compartilha que seu trabalho vai muito além das panelas. “Eu fico até emocionada, porque é uma coisa que veio da minha mãe. A melhor coisa do mundo é o amor pelo que a gente faz”, afirmou ela, revelando o lado emocional por trás dessa tradição.
Origens espontâneas e crescimento impressionante
Um dos idealizadores da feijoada na Portela é o renomado sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz. Ele conta que a iniciativa surgiu de forma completamente espontânea, a partir de uma simples roda de samba organizada sob uma árvore na quadra da escola.
“Era uma roda de samba com a Velha Guarda, recebendo gente de outras escolas. O negócio foi crescendo, e teve mês de dar 10 mil pessoas aqui”, relatou Marquinhos. O sucesso estrondoso da feijoada da Portela acabou inspirando outras escolas de samba a criarem eventos semelhantes, espalhando a tradição por toda a cidade.
Função social e impacto comunitário
Além de proporcionar comida de qualidade e música animada, a feijoada cumpre uma função social vital dentro das escolas de samba. O evento gera renda significativa para trabalhadores da comunidade e ajuda a manter as quadras ativas e vibrantes ao longo de todo o ano, não apenas durante o período carnavalesco.
Para muitas pessoas que trabalham na cozinha, a feijoada representa acolhimento e pertencimento. Uma das cozinheiras destacou que o trabalho trouxe uma mudança positiva em sua rotina após a aposentadoria. “Não se trata só do financeiro, é satisfação. Isso mexe com o nosso emocional”, disse ela, enfatizando o valor psicológico e social da atividade.
Samba e gastronomia: uma fusão criativa
A relação íntima entre samba e comida se manifesta até mesmo na musicalidade das rodas. Durante as apresentações, utensílios de cozinha frequentemente viram instrumentos improvisados. Integrantes da bateria revelam que colheres, pratos e até frigideiras já foram utilizados para marcar o ritmo, demonstrando a criatividade e a improvisação típicas da cultura do samba.
Ao longo dos anos, a feijoada se consolidou como um dos símbolos mais autênticos da vida nas quadras das escolas de samba. Ela reúne moradores locais, sambistas experientes e visitantes curiosos em torno de um prato que se transformou em tradição indispensável no calendário cultural carioca.
Essa tradição gastronômica e musical não apenas preserva a herança do samba, mas também fortalece os laços comunitários e sustenta economicamente aqueles que mantêm viva a chama do carnaval durante todos os meses do ano.