Morreu nesta terça-feira (19) Waldirene Nogueira, a primeira mulher trans do Brasil a ser submetida a uma cirurgia de redesignação sexual. Ela tinha 80 anos e faleceu em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, vítima de insuficiência respiratória aguda. A informação foi confirmada por familiares.
Trajetória de vida
Natural de Lins (SP), Waldirene nasceu em 1945 e foi registrada como Waldir Nogueira. Em 1969, iniciou acompanhamento com a endocrinologista Dorina Epps, no Hospital das Clínicas de São Paulo. Após dois anos de avaliações médicas e psicológicas, recebeu o laudo que reconhecia sua transexualidade.
A cirurgia de redesignação sexual foi realizada em dezembro de 1971, no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, pelo cirurgião plástico Roberto Farina. O procedimento é considerado o primeiro do tipo no Brasil.
Batalha judicial
Após a operação, Waldirene enfrentou uma longa luta na Justiça. Ao tentar alterar seus documentos, o médico Roberto Farina foi condenado a dois anos de reclusão por lesão corporal gravíssima. Em 1976, ela foi levada coercitivamente ao Instituto Médico Legal (IML), onde passou por exames invasivos e foi fotografada nua. Mesmo sob pressão, Waldirene defendeu o cirurgião, reunindo cartas de apoio de autoridades e familiares.
O pedido de alteração do nome foi negado inicialmente, e ela permaneceu registrada como Waldir por décadas. A retificação na certidão de nascimento só ocorreu em 2010, quando tinha 65 anos. O novo RG foi emitido em 2011.
Vida pessoal e legado
Formada em contabilidade, Waldirene nunca exerceu a profissão devido à divergência entre sua identidade e os documentos civis. Ao longo da vida, trabalhou como manicure e viveu de forma discreta. Nos últimos anos, residia em Ubatuba, onde era cuidada por um irmão, segundo a sobrinha Alessandra Cotrim.
O corpo será trasladado para Lins, onde será velado na manhã desta quarta-feira (20), a partir das 7h. O enterro está previsto para as 17h, no Cemitério da Saudade.



