O Brasil perdeu um dos maiores nomes da teledramaturgia. Manoel Carlos, autor de novelas históricas que marcaram gerações, faleceu neste sábado (10), aos 92 anos. Nascido em São Paulo, em 1933, ele sempre se declarou um carioca de coração, paixão que transbordava em suas obras, ambientadas nas paisagens e no cotidiano do Rio de Janeiro, especialmente do bairro do Leblon.
Da biblioteca às telas: a trajetória de Maneco
A jornada artística de Manoel Carlos, carinhosamente chamado de Maneco, começou cedo e longe dos holofotes. Filho de um comerciante e uma professora, aos 14 anos trabalhava como auxiliar de escritório. No entanto, seu coração já batia forte pelas artes. Diariamente, ele se reunia com um grupo de jovens na Biblioteca Municipal de São Paulo para debater literatura e teatro. Esse grupo, batizado de Adoradores de Minerva, contava com futuras lendas como Fernanda Montenegro, Fernando Torres e Antunes Filho.
Sua estreia profissional foi como ator, aos 17 anos, no "Grande Teatro Tupi". Mas foi na escrita que ele encontrou sua vocação. Em 1952, começou a escrever para a TV, passando por emissoras como TV Record, TV Itacolomi e TV Tupi, onde adaptou mais de 100 teleteatros. Na década de 1960, colaborou em programas icônicos como o "Chico Anysio Show" na TV Rio.
O legado na TV Globo e as inesquecíveis Helenas
Maneco chegou à TV Globo em 1972 como diretor-geral do "Fantástico". Sua primeira novela na emissora foi "Maria, Maria", em 1978, uma adaptação. Porém, foi a partir da década de 1980 que ele consolidou seu estilo único, marcado por conflitos familiares profundos, o Rio de Janeiro como cenário e suas heroínas chamadas Helena.
A primeira Helena surgiu em "Baila Comigo" (1981), vivida por Lílian Lemmertz. O nome, inspirado na mitologia grega, simbolizava a mulher forte e guerreira. Para Maneco, as Helenas eram mães abnegadas, capazes de qualquer sacrifício pelos filhos, mas também vaidosas e humanas em suas contradições. Grandes atrizes como Regina Duarte, Vera Fischer, Christiane Torloni e Taís Araújo deram vida a essas personagens emblemáticas.
Suas novelas não apenas entretinham, mas provocavam discussões importantes. Maneco abordou temas como doação de medula óssea, alcoolismo, violência contra a mulher, preconceito e inclusão social, sempre com sensibilidade e um olhar realista. Obras como "Por Amor" (1997), "Laços de Família" (2000) – com a cena icônica em que Carolina Dieckmann raspa o cabelo – e "Mulheres Apaixonadas" (2003) se tornaram fenômenos e colecionaram prêmios.
Vida pessoal e o último capítulo
Além de seu legado profissional, Manoel Carlos era pai da atriz Júlia Almeida e da roteirista Maria Carolina, que colaborou com ele em várias obras. A vida lhe reservou duras provações: ele perdeu outros três filhos – o dramaturgo Ricardo de Almeida (1988), o diretor Manoel Carlos Júnior (2012) e o estudante Pedro Almeida (2014).
Sua última novela foi "Em Família" (2014), onde convidou Julia Lemmertz, filha de sua primeira Helena, para estrelar. Maneco deixa um vazio na cultura brasileira, mas seu trabalho permanece como um testemunho do amor, dos conflitos humanos e da força da mulher, sempre sob o céu azul do Rio de Janeiro que tanto amou.