Adeus à Voz do Galeão: Morre Iris Lettieri, ícone que embalou a saudade e os reencontros no aeroporto
Morre Iris Lettieri, a voz do Aeroporto do Galeão

O Rio de Janeiro perdeu um pedaço da sua trilha sonora urbana. Iris Lettieri, aquela voz que — vamos combinar — era a trilha sonora oficial da saudade e da ansiedade antes de decolar, partiu dessa vida nessa terça-feira (27). Tinha 86 anos. A causa? Uma pneumonia, que complicou o quadro de saúde dela. Uma notícia daquelas que a gente lê e solta um daqueles suspiros fundos, sabe?

Por mais de três décadas, quem passava pelo Galeão não escutava simplesmente anúncios. Escutava a voz dela. Um timbre que misturava autoridade e um aconchego de avó, guiando desde o executivo estressado até a família inteira em busca do primeiro voo. Era mais do que informação; era um ponto de referência emocional naquele caos de malas e despedidas.

Uma carreira que decolou sem querer

E o curioso é que ela quase não entrava nessa! A história é das boas: nos anos 70, ela tava lá, trabalhando na Infraero, quando alguém percebeu que aquele vozão não podia ficar escondido. Chamaram pra um teste. Ela topou na hora, mas deve ter ficado com aquele friozinho na barriga, né? Deu certo. Na certa. E daí pra frente, virou a estrela invisível — mas sempre presente — do principal aeroporto do país.

Não era só "o voo tal está embarcando". Era o modo como ela falava. Tinha uma cadência única, uma clareza que cortava o ruído ambiente e uma paciência infinita — porque repetir a mesma coisa mil vezes, todo santo dia, não é pra qualquer um.

O silêncio que dói

Agora o saguão vai ficar mais mudo. Quem nunca ouviu, dificilmente vai entender a dimensão do que se perdeu. Quem ouviu, dificilmente esquece. É daquelas memórias afetivas que a gente carrega sem nem perceber. Ela aposentou em 2012, mas o eco do seu trabalho continuou por aí, na cabeça de quem passou apuro e foi salvo por um anúncio, ou de quem ouviu o próprio nome sendo chamado para aquele embarque urgente.

E não era só no Galeão, não! Durante um tempo, ela também emprestou a voz para a Rádio Roquette Pinto. Mulher de múltiplos palcos, sempre fora do holofote.

O velório foi discreto, assim como ela sempre pareceu ser. Aconteceu no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju, e o sepultamento logo em seguida. Fica a saudade. E a lembrança nítida de uma voz que foi, para muitas gerações, o som oficial do começo — e do fim — de tantas jornadas.