Morre aos 92 anos Manoel Carlos, criador das Helenas e ícone da dramaturgia
Manoel Carlos, dramaturgo das Helenas, morre aos 92 anos

O mundo da dramaturgia brasileira está de luto. Morreu neste sábado (10), no Rio de Janeiro, o renomado autor Manoel Carlos, aos 92 anos de idade. A informação foi confirmada através do perfil oficial da produtora Boa Palavra, empresa responsável pela gestão do legado do escritor. A causa da morte não foi divulgada.

Conhecido por levar às telas da televisão histórias de grande sucesso, Manoel Carlos deixa uma marca indelével na cultura popular. Seu velório será realizado de forma restrita, apenas para familiares e amigos próximos.

O legado das Helenas na TV brasileira

A carreira de Manoel Carlos na televisão foi marcada por uma assinatura única: a criação de uma série de personagens femininas fortes e icônicas que compartilhavam o nome Helena. Essa se tornou uma marca pessoal e amplamente reconhecida em seus folhetins, que frequentemente se desdobravam a partir dessa musa inspiradora. Ao todo, foram nove Helenas que povoaram o imaginário do público ao longo de sua trajetória.

A atriz que mais vezes encarnou uma Helena foi Regina Duarte. Ela interpretou a personagem em três oportunidades: em "História de Amor" (1995), "Por Amor" (1997) e "Páginas da Vida" (2006). Regina Duarte, vale lembrar, deixou a TV Globo durante o governo de Jair Bolsonaro para assumir a secretaria de Cultura da Presidência, onde permaneceu por menos de três meses.

De Helena de Troia à primeira Helena negra

Em entrevistas, o próprio dramaturgo explicou a origem dessa onda de Helenas. A inspiração veio da figura mitológica de Helena de Troia, considerada a mulher mais bela do mundo. Outra influência fundamental foi seu primeiro trabalho na TV, uma adaptação do romance homônimo de Machado de Assis para a TV Paulista, no longínquo ano de 1952.

Contudo, quem inaugurou oficialmente essa coleção especial de personagens foi a atriz Lilian Lemmertz, na novela "Baila Comigo", já pela TV Globo, em 1981. Trinta e três anos depois, sua filha, a também atriz Julia Lemmertz, daria continuidade à tradição familiar ao interpretar uma Helena em "Em Família", a última novela escrita pelo nonagenário. As versões jovens dessa personagem foram vividas por Julia Dalavia e Bruna Marquezine.

A lista de atrizes que se tornaram Helenas é extensa e repleta de talento. Maitê Proença assumiu o papel em "Felicidade" (1991). Em 2000, foi a vez de Vera Fischer brilhar em "Laços de Família", interpretando uma mãe que abre mão do amor pelo galã Reynaldo Gianecchini para ver a filha, vivida por Carolina Dieckmann, feliz.

Christiane Torloni trouxe uma Helena emblemática para "Mulheres Apaixonadas" (2002), aderindo à onda de empoderamento feminino do novo século com uma personagem que decide terminar seu casamento para viver um antigo amor.

Um marco importante na obra de Manoel Carlos ocorreu em 2009, com a novela "Viver a Vida". Foi quando Taís Araújo deu vida à primeira Helena negra criada pelo autor. Em retrospectiva, a atriz já expressou frustração sobre a forma como a personagem foi recebida pelo público na época e sobre o tratamento que recebeu nos bastidores da produção.

Um capítulo que se fecha

A morte de Manoel Carlos encerra um capítulo fundamental da dramaturgia televisiva brasileira. Seu trabalho, centrado em tramas familiares e relações humanas complexas, moldou gerações de telespectadores e consolidou um estilo narrativo que misturava romance, conflito e uma profunda sensibilidade para com os dilemas femininos.

Sua habilidade em criar universos cativantes e personagens inesquecíveis, especialmente através das múltiplas Helenas, garante que seu legado permanecerá vivo na memória afetiva do país. A televisão brasileira perde não apenas um grande escritor, mas um verdadeiro contador de histórias que soube, como poucos, traduzir em capítulos diários os anseios e as emoções de seu tempo.