Manoel Carlos, autor de 'Laços de Família' e outras 6 novelas marcantes, morre aos 92 anos
Manoel Carlos, autor de novelas marcantes, morre aos 92 anos

O Brasil perdeu um de seus maiores nomes da teledramaturgia. Manoel Carlos, conhecido carinhosamente como Maneco, faleceu neste sábado, 10 de fevereiro, aos 92 anos, na cidade do Rio de Janeiro. Autor de algumas das tramas mais emocionantes e populares da televisão brasileira, seu legado permanece vivo através de personagens inesquecíveis e histórias que debateram temas profundos da sociedade.

Sua carreira na TV Globo foi marcada por uma sequência de sucessos que conquistaram o público e a crítica. Para compreender a dimensão de sua importância, é possível revisitar sete de suas obras mais significativas, que mostram a evolução de seu trabalho e seu talento para conectar entretenimento com questões humanas universais.

As primeiras tramas e o retorno triunfal

Uma de suas primeiras grandes novelas foi 'Baila Comigo', em 1981. A trama apresentava uma história de gêmeos separados ainda bebês: Quinzinho e João Victor, ambos vividos por Tony Ramos. Criados em realidades distintas – um no Rio como bancário extrovertido e outro em Portugal como advogado sério –, os irmãos só descobrem a existência um do outro ao final da história, após uma série de pressentimentos e encontros fortuitos.

Após um período afastado, Manoel Carlos retornou à emissora em 1991 com 'Felicidade'. Mas foi com 'História de Amor', em 1995, que consolidou seu estilo no horário nobre. Com Regina Duarte no papel da protagonista Helena, a novela explorou um triângulo amoroso intenso e ainda promoveu uma campanha educativa sobre câncer de mama através da personagem Marta, interpretada por Bia Nunes.

O ápice: novelas que viraram fenômeno social

Nos anos 2000, o autor atingiu o auge de sua popularidade e relevância. Em 'Por Amor' (1997), novela estrelada por Regina Duarte, Manoel Carlos abordou um dilema moral extremo: uma mãe que cede seu filho recém-nascido para salvar a vida de sua neta. O autor explicou que a trama buscava explorar os limites do amor materno, que considerava inquestionável.

Mas foi com 'Laços de Família' (2000) que ele criou um dos maiores fenômenos da TV brasileira. Com Vera Fischer como Helena e Carolina Dieckmann como Camila, a novela apresentou uma trama dramática onde a filha descobre ter leucemia. A solução encontrada pela mãe – engravidar do ex-marido para gerar um bebê com células-tronco compatíveis – foi inspirada em um caso real dos Estados Unidos. A obra teve um impacto social enorme, contribuindo diretamente para o aumento no número de doadores de medula óssea no país.

Em 'Mulheres Apaixonadas' (2003), protagonizada por Cristiane Torloni, o autor mergulhou nos segredos e dramas de um grupo de mulheres. A trama central, envolvendo a personagem Helena, seu marido Téo (Tony Ramos) e o reencontro com um amor do passado, César (José Mayer), se misturava a subtramas que abordavam violência doméstica e preconceito, mantendo o equilíbrio entre entretenimento e conscientização.

Últimas obras e um legado de superação

Em 2009, 'Viver a Vida' trouxe Taís Araújo como Helena, uma top model que enfrenta a tetraplegia da enteada Luciana (Alinne Moraes) após um acidente. A novela manteve a tradição do autor de associar tramas emocionantes a mensagens de esperança e superação diante das tragédias da vida real.

Sua última novela foi 'Em Família', em 2014. A trama acompanhou décadas da relação conturbada entre os primos Laerte (Gabriel Braga Nunes) e Helena (Julia Lemmertz), marcada por ciúmes, tragédias e um segredo de família que culminou em um casamento trágico.

Um estilo único e um adeus

A marca de Manoel Carlos era inconfundível: protagonistas frequentemente batizadas de Helena, tramas centradas em conflitos familiares e amorosos, e uma habilidade rara de discutir temas sociais complexos – como doação de medula, câncer, violência contra a mulher e dilemas éticos – dentro do formato popular da novela das seis e das sete.

Sua morte encerra um capítulo da história da televisão brasileira, mas suas histórias, reprisadas e relembradas, continuam a emocionar e a provocar reflexões. Manoel Carlos deixa um legado que vai muito além do entretenimento, tendo usado seu talento para tocar o coração do Brasil e, em muitos casos, para mudar mentalidades e salvar vidas.