Setor de eventos brasileiro renasce com força total após crise pandêmica
O Brasil consolidou-se definitivamente como um dos maiores mercados globais de eventos, transformando multidões em oportunidades de negócio lucrativas. Com números recordes de empregos gerados e arrecadação bilionária, o setor passou por um processo intenso de profissionalização após os anos difíceis da pandemia de COVID-19. Agora, o desafio é manter o crescimento expressivo sem o apoio do programa federal Perse, que chegou ao fim em abril de 2025 após conceder incentivos fiscais durante o período mais crítico.
Transformação de multidões em motor econômico
O país aprendeu a capitalizar o poder das aglomerações, desenvolvendo um portfólio diversificado que abrange praticamente todos os setores da economia nacional. Desde o retorno do tradicional Salão do Automóvel até feiras especializadas em tecnologia e agronegócio, passando por festivais de música, encontros de games, congressos médicos, convenções corporativas, fóruns de investimento, eventos esportivos e reuniões empresariais estratégicas.
Os dados confirmam o notável aquecimento do segmento. Nos dois primeiros meses de 2026, os eventos em território brasileiro empregaram diretamente 205 mil pessoas e arrecadaram impressionantes R$ 25,3 bilhões. Este é o maior nível da série histórica iniciada em 2019, antes da pandemia, conforme levantamento realizado pela Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape). Considerando toda a cadeia produtiva envolvida — incluindo turismo, hotelaria, alimentação e serviços diversos —, são aproximadamente 4,3 milhões de trabalhadores que dependem, direta ou indiretamente, do calendário de eventos.
"Somos indutores de atividade econômica", afirma Doreni Caramori Júnior, presidente da Abrape.Profissionalização pós-pandemia e valorização do presencial
A pandemia, embora tenha sido catastrófica para os profissionais do setor, produziu um efeito surpreendente de transformação. Superado o período de quarentena e restrições, as atividades presenciais passaram a ser cada vez mais valorizadas por empresas e público. "Houve, como consequência, o fomento a um ciclo de profissionalização e investimentos significativos no setor", explica Caramori.
Boa parte desse avanço se explica pela força renovada dos encontros corporativos. Feiras, convenções e congressos deixaram de ser meras vitrines de marcas ou espaços de relacionamento superficial. Atualmente, ocupam um papel central na estratégia das empresas de diversos portes. Após os tempos marcados pelo trabalho remoto e pela dispersão das equipes, os eventos presenciais ganharam importância como ferramenta essencial para:
- Gerar negócios concretos e oportunidades comerciais
- Fortalecer vínculos entre colaboradores, parceiros e clientes
- Criar networking de qualidade em ambientes especializados
- Posicionar marcas de forma estratégica no mercado
Setores que impulsionam o crescimento
A lógica dos eventos como estratégia corporativa vale para praticamente todos os segmentos da economia brasileira:
- Agronegócio: Transformou suas feiras em palcos privilegiados para lançamentos de máquinas agrícolas e novas tecnologias do campo.
- Indústria automobilística: Aposta em salões especializados e festivais temáticos para reconstruir sua conexão emocional com o público consumidor.
- Mercado de games: Converteu suas concentrações em grandes plataformas de entretenimento, consumo e networking profissional.
A edição de 2025 da Gamescom Latam, versão latino-americana de um dos maiores eventos de games do mundo, reuniu 130 mil pessoas e espera quebrar novo recorde de público no próximo encontro, programado para o final de abril em São Paulo. "Essas feiras são ativos estratégicos do país, porque trazem o mercado global para dentro do Brasil e nos posicionam de forma competitiva", afirma Eliana Russi, diretora de conteúdo da Gamescom.
Desafios futuros sem os incentivos do Perse
O programa federal Perse, criado em meio à pandemia, concedeu isenção de tributos e facilitou a renegociação de dívidas das empresas do setor, funcionando como uma espécie de colchão de sobrevivência durante a fase de paralisação quase total das atividades. "O programa foi importante para a indústria de eventos, ao ajudar empresas a investir em equipamentos e qualificação", reconhece Caramori.
Seu custo, porém, foi considerável. Estimativas do governo indicam que a política consumiu R$ 18 bilhões em renúncia fiscal, com resultados considerados modestos ante o volume de recursos mobilizados. O programa atingiu seu teto previsto e chegou ao fim em abril de 2025. Sem esse apoio, o setor agora precisa provar que consegue sustentar sozinho a expansão que vinha sendo impulsionada pelos incentivos governamentais.
A julgar pelo ritmo atual de crescimento e pela diversificação de eventos em todo o território nacional, o Brasil está longe de esgotar seu apetite por encontros presenciais. O setor demonstra resiliência e capacidade de inovação, posicionando-se como um dos pilares da recuperação econômica pós-pandemia.



