A convocação para a Copa do Mundo deixou de ser apenas um ato esportivo para se tornar uma vitrine de afetos, imagem pública e construção simbólica da masculinidade dos jogadores. Em vídeos publicados por clubes, patrocinadores e pela própria seleção, tornou-se comum ver atletas recebendo a notícia ao lado das esposas, namoradas e filhos, quase sempre em cenas cuidadosamente emocionais. Assim foi durante a convocação do técnico Carlo Ancelotti nessa segunda-feira, 18.
O baiano Danilo se emocionou e correu para abraçar a mulher ao ouvir seu nome na lista de Ancelotti. Ao lado de parentes e, também, da esposa, Marquinhos foi outro que se entregou às lágrimas. O fato se repetiu com os demais, à exaustão. A imagem do craque isolado e exclusivamente competitivo dá lugar ao homem sensível, familiar e emocionalmente disponível. O jogador chora, abraça a companheira, ajoelha no chão, segura os filhos no colo.
A emoção, raramente associada ao universo masculino, ganha uma exceção no contexto do futebol, valorizada como ativo de imagem e pertencimento. Mas essa imagem também reforça certos padrões tradicionais. A presença constante das mulheres ao lado dos atletas ajuda a consolidar uma ideia específica de sucesso masculino: o homem vencedor dentro de campo, financeiramente poderoso e legitimado por uma relação amorosa estável e pública. Não é apenas o jogador convocado; é o marido, o pai, o chefe de família.
Movimentos simultâneos
Segundo a psicanalista e socióloga Ingrid Gerolimich, em conversa com a coluna GENTE, existem dois movimentos que não são antagônicos, mas simultâneos, acontecendo nessa cena. Por um lado, ela pode, sim, romper parcialmente com o ideal de masculinidade clássica, de um atleta invulnerável, aquele que não pode mostrar fragilidade. Mas, por outro lado, aproxima o jogador de uma imagem mais sensível, mais emocional. “E se por um lado, ela rompe com a narrativa de uma masculinidade agressiva, invulnerável, também pode reforçar uma estrutura bastante conhecida, tradicional de gênero, que é essa mulher como retaguarda emocional do sucesso masculino”.
Ainda na análise de Ingrid, a cena mostrando esse “palco da glória” do atleta que busca o prestígio e o reconhecimento público, reforça que são espaços profundamente ainda masculinos. “Pode reforçar, sim, a ideia da mulher como figura do cuidado, que fica dentro de casa, que não se expõe, e do homem como herói”.
Há ainda um componente comercial evidente. O futebol contemporâneo entendeu que o torcedor não consome apenas desempenho esportivo, mas narrativas pessoais. Casais de jogadores movimentam redes sociais, campanhas publicitárias e cobertura de entretenimento. A convocação vira quase um reality show emocional, em que a intimidade é transformada em espetáculo compartilhável. Todo mundo quer ver como Neymar vai reagir, por exemplo. Se vai abraçar a mulher, Bruna Biancardi. Se vai estar rodeado dos filhos…
Construção social
Para Andréia Batista, psicóloga do Esporte Intercultural, a masculinidade no futebol foi construída a partir da ideia do homem emocionalmente: autossuficiente, forte, competitivo e pouco conectado à demonstração pública de afeto ou vulnerabilidade. “Quando jogadores aparecem ao lado de suas esposas em um momento de alta tensão emocional como a convocação para uma Copa do Mundo, existe aí um deslocamento simbólico importante. Essa imagem mostra que performance e vínculo afetivo não são opostos, pelo contrário, revela homens que continuam sendo altamente competitivos, mas que também legitimam publicamente apoio emocional, parceria e intimidade. Isso tem um impacto cultural relevante, porque ajuda a ampliar o imaginário social sobre o que é ser masculino”.
Na sua leitura como psicóloga ligada ao universo esportivo, isso também comunica algo muito contemporâneo: atletas de alta performance não são apenas corpos performáticos ou símbolos de virilidade. “São sujeitos emocionalmente atravessados por expectativas, medo, pressão, insegurança e necessidade de pertencimento. E dividir esse momento com a parceira humaniza esse atleta diante do público”, continua.
Por outro lado, esse modelo de “encenação” revela como o futebol ainda opera dentro de códigos conservadores de representação masculina. Apesar da abertura para demonstrações de afeto, permanece forte a valorização de uma masculinidade heteronormativa, ligada ao sucesso, à virilidade e à validação familiar. A Copa, nesse sentido, continua sendo não apenas um torneio esportivo, mas também palco de representação social sobre o que significa “ser homem” no imaginário popular brasileiro. E toda a emoção precisa ser gravada, registrada e exibida. Nada mais fica entre quatro paredes.
“É importante frisar o papel das tecnologias e das redes sociais, onde a circulação frenética de imagens da vida privada e da intimidade passa a integrar uma encenação pública. Essas imagens ajudam a construir tanto ideais de virilidade e controle emocional quanto uma imagem de estabilidade, equilíbrio e fortaleza. No mundo virtual, retratar o vínculo conjugal, demonstrado sensibilidade e intimidade já não aparece necessariamente como algo que enfraquece a masculinidade, mas como parte de um modelo de homem bem-sucedido, emocionalmente equilibrado e socialmente respeitável”, reforça Carolina Castellitti, socióloga da UERJ.
Essa exacerbação do privado para o espaço público, claro, também diz muito sobre a imagem a ser “vendida” aos torcedores. Estes, por sinal, só almejam que os próximos choros sejam igualmente felizes.



