Uma inesperada visita a um bar iraniano revelou a riqueza da cultura persa e a poesia de Hafez, gigante da literatura pouco conhecido no Brasil. A primeira tradução direta de seus gazais para o português, intitulada “Da Taverna ao Paraíso”, de autoria do estudioso Nicolas Voss, abre as portas para versos que celebram tanto paixões mundanas quanto aspirações místicas, servindo como uma ponte para um universo cultural fascinante.
O encontro com Hafez
Em uma tarde de sábado, após uma viagem a trabalho, o autor deste texto deparou-se com um novo estabelecimento no bairro: um bar e restaurante iraniano. Curioso, entrou e conversou com os proprietários, que deixaram o Irã para escapar à opressão do regime atual. “Somos persas, não árabes”, frisou o dono. A esposa, com auxílio do Google Tradutor, contou um pouco de sua história e mostrou uma mesa com oferendas ao Ano Novo Persa, o Nowruz. Entre doces, temperos, moedas e velas, havia uma folha impressa com um poema em persa: um poema de Hafez. Após saborear um prato de cordeiro, o autor retornou para casa, mas Hafez permaneceu em sua mente. Na semana seguinte, descobriu que a Editora Tabla lançaria um livro de Hafez.
Da Taverna ao Paraíso
“Da Taverna ao Paraíso” é o título da primeira tradução direta do persa dos versos de Hafez no Brasil. A obra, organizada por Nicolas Voss, reúne uma seleção de 33 gazais – um tipo de poema consagrado no Oriente – elaborados pelo poeta de Shiraz, cidade no sudoeste do Irã, que viveu no século XIV. Hafez é pouco conhecido no Brasil, mas é um nome popular em seu país, presente na boca de crianças e idosos, e reverenciado no Ocidente por gigantes da literatura como Goethe e Jorge Luis Borges.
Seus versos destilam prazeres mundanos e aspirações místicas e existenciais, fermentam paixões e ironias, e extravasam referências à Bíblia hebraica, a figuras islâmicas e a magos do zoroastrismo, a antiga religião persa. Diluem fronteiras em um mundo onde o rigor se restringe à métrica dos poemas – um desafio para o tradutor. “Se morreres, Hafez, a copa ainda firme na mão / da taverna ao paraíso rápido te transportam”, lê-se em um dos gazais.
Entrevista com Nicolas Voss
Como o persa e Hafez entraram em sua vida?
Sempre soube que a poesia persa era uma rica tradição. Mas foi em um momento de dificuldade e incerteza que comecei a me interessar por Hafez. Deparei-me com poucas traduções de qualidade e até mesmo traduções falsas. Era evidente que havia algo potente, mesmo através dessas barreiras, que me trazia alento. Decidi aprender persa para ler a poesia persa e, em especial, Hafez.
Por que decidiu traduzi-lo?
Quando comecei a estudar persa, já trabalhava com tradução e interpretação. Iniciei meu mestrado na PUC-Rio, sob orientação do professor Paulo Henriques Britto, onde estudei formalmente a tradução de poesia. Hafez é um poeta ao qual retorno constantemente. Cada vez que leio seus poemas, descubro novas camadas e significados.
Qual a relevância de Hafez para a cultura iraniana?
Hafez é imensamente popular no Irã e em outros países de língua persa, como Afeganistão e Uzbequistão, até hoje, apesar do hermetismo e da linguagem complexa de muitos poemas. Seus gazais estão na boca de crianças e idosos, de taxistas e estudiosos. É comum o fal-e Hafez, prática de adivinhação em que se abre seu divã ao acaso e se lê um poema como portento ou conselho. No Irã, Hafez só fica atrás de Ferdowsi, considerado o fundador da tradição poética persa.
Qual foi o critério de seleção dos gazais?
Levei em conta canonicidade, variedade temática e traduzibilidade. Muitos poemas são canônicos e populares, como o gazal 1, o primeiro do divã. Busquei poemas que mostrassem a variedade temática: amorosos, de vitupério, de louvor ao vinho, místicos e esotéricos. O critério determinante foi a traduzibilidade: verter o poema para o português com boa fruição, produzindo um texto que funcione como poema na língua de chegada.
Qual foi o maior desafio na tradução?
O principal desafio estrutural foi a extensão dos versos. A maioria dos gazais usa versos longos, com 14 sílabas ou mais, e na métrica lusófona não há verso comumente aceito com mais de 12 sílabas. A solução, em conjunto com o professor Paulo Henriques Britto, foi utilizar versos compostos. Por exemplo, um verso de 14 sílabas é composto por dois heptassílabos separados por uma cesura. Curiosamente, esses versos compostos também estavam presentes na lírica galego-portuguesa medieval. Outros desafios incluem a reprodução das monorrimas, a ambiguidade poética e o fato de o persa ser uma língua de gênero neutro.
A diluição de fronteiras é uma característica de Hafez?
Sim. Quando Hafez começou a escrever, no século XIV, herdou uma forma desenvolvida com rico léxico poético, usado tanto para poemas amorosos quanto místicos. Poetas sufis como Rumi já usavam a linguagem do vinho e do amor para se referir a Deus. Hafez torna o gazal politemático, introduzindo ambiguidades. Um poema que parece amoroso e profano repentinamente assume sentidos espirituais. Suas alusões mesclam o Irã pré-islâmico e o islâmico. A figura do pir-e moqân (velho mago) é uma fonte de sabedoria contrastada com a hipocrisia religiosa dominante.
O livro “Da Taverna ao Paraíso” está disponível na Amazon por R$ 82, oferecendo aos leitores brasileiros a oportunidade de apreciar uma das maiores joias da literatura iraniana e universal.



