Bolo monumental de 55 metros será distribuído em celebração aos 182 anos de Padre Cícero
Há exatos 182 anos, nascia Cícero Romão Batista, o homem que daria rosto, significado e força à devoção, fé e economia da região do Cariri, no sul do Ceará. A atuação visionária do sacerdote transformou radicalmente uma pequena vila com apenas 32 casas em uma das principais cidades do estado, consolidando-a como destino fundamental do turismo religioso em todo o Brasil.
Da vila simples ao polo de desenvolvimento
Padre Cícero Romão Batista veio ao mundo em 24 de março de 1844 no município do Crato, também localizado no Cariri. Atualmente, sua imagem é um símbolo poderoso da fé, estampada em camisas, acessórios diversos e até em uma imponente estátua de 27 metros que se ergue na Colina do Horto, em Juazeiro do Norte. É praticamente impossível discutir fé e religião no Ceará sem que seu nome e legado venham à tona.
O percurso do "Padim" incluiu estudos em Cajazeiras, no sertão da Paraíba, antes de seu retorno ao Ceará. Ele completou sua formação filosófica e teológica em Fortaleza, ordenando-se em 1870. Dois anos depois, estabeleceu-se definitivamente em Juazeiro, um vilarejo que, além das poucas residências, contava apenas com uma igreja dedicada a Nossa Senhora das Dores e servia basicamente como local de passagem.
"A chegada do 'Padim' foi o ponto de virada que transformou completamente a realidade local", explicou Padre Cícero José da Silva, reitor da Basílica Nossa Senhora das Dores. "Padre Cícero Romão chegou a considerar ser professor em outros países, mas, influenciado por seu padrinho, decidiu permanecer próximo de sua família e dedicar-se ao trabalho pastoral em Juazeiro."
Impacto econômico e transformação urbana
Wilson Soares, secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romarias, destacou o extraordinário crescimento da cidade: "Hoje, Juazeiro é um polo universitário e econômico de grande relevância. Possuímos um comércio pujante, onde nosso PIB representa mais de 90% apenas no setor de comércio e serviços, graças à centralidade e à intensa circulação de pessoas."
Ele complementou: "Juazeiro registra uma média diária de 50 mil pessoas circulando que não são residentes. Elas vêm da região, de estados vizinhos e até de outras partes do Brasil, atraídas pela figura de Padre Cícero e pela importância econômica que a cidade conquistou — uma transformação que só foi possível devido à imagem e ao legado do nosso 'Padim'."
Trajetória marcada por devoção e reconciliação
A vida de Padre Cícero não foi isenta de controvérsias. Em 1894, ele foi suspenso da ordem sacerdotal, mas, mesmo assim, continuou a exercer uma liderança forte entre o povo. Em 1911, assumiu como o primeiro prefeito de Juazeiro, falecendo em 1934. Sua influência, no entanto, só aumentou após sua morte.
Décadas mais tarde, em 2015, ocorreu uma reconciliação histórica entre a Igreja e sua memória. Em 2022, o "Padim" recebeu o título de servo de Deus, com a abertura do processo de beatificação, que atualmente se encontra na fase romana, sob análise do Vaticano.
Dom Magnus Henrique Lopes, bispo da Diocese do Crato, detalhou o processo: "Uma vez aprovado pelo dicastério da causa dos santos, inicia-se a redação da 'posicion', que é a biografia de Padre Cícero baseada no processo. Após isso, a Santa Sé pode decretá-lo 'venerável', aguardando apenas o reconhecimento de um milagre pela equipe médica para que seja declarado Beato e, posteriormente, com outro milagre, Santo."
Fé viva e manifestações de gratidão
Apesar das formalidades do processo vaticano, que ainda impedem a colocação de sua imagem nos altares das igrejas católicas, a devoção ao sacerdote permanece intensa e vibrante. Maria Joana da Silva Santos, aposentada, expressou sua crença: "Eu quebrei os dois joelhos e 'tô' andando pra todo canto. Minha valência é o Padre Cícero, em tudo na minha vida."
Maria Socorro de Sales Vieira, também aposentada, compartilhou um testemunho emocionante: "Santo, santo. Ele é santo. Eu tenho tanta graça. Minha filha teve uma hemorragia interna com apenas 1% de chance, segundo o médico. Eu segurei na cruz quando ela entrou na cirurgia e pedi ao 'Padim Ciço' que devolvesse a vida dela. Ela foi curada, e o médico até comentou que eu falei direto com Jesus — mas eu disse que foi com o Padre Cícero."
Os pedidos e agradecimentos dos fiéis são numerosos e variados. Luiz Antônio, comerciante pernambucano, é um exemplo marcante. Há 25 anos, ele participa de joelhos da missa no largo da Capela do Socorro, em cumprimento a uma promessa. "Passei por um momento muito difícil, endividado, pensei até em tirar minha própria vida. Vim ao Horto, pedi intercessão ao Padre Cícero e ele concedeu essa graça. Prometi que, se fosse da vontade de Deus, todo dia 20 eu viria a Juazeiro e participaria da missa de joelhos, em gratidão eterna ao Padre Cícero", relatou.
Neste aniversário de 182 anos, a celebração ganha um sabor especial com a distribuição de um bolo gigante de 55 metros, simbolizando a doçura da fé e a grandiosidade do legado deixado por Padre Cícero Romão Batista, cuja presença continua a moldar a identidade cultural, religiosa e econômica do Cariri e do Ceará.



