Negra Li celebra três décadas de música e reflete sobre representatividade
Em entrevista exclusiva ao g1 nesta quarta-feira (18), a cantora e compositora Negra Li fez um balanço emocionante dos seus 30 anos de carreira, marcados por superação, fé e uma busca constante por representatividade. A artista, que se apresenta no Lollapalooza 2026 nesta sexta-feira (20), compartilhou momentos íntimos e reflexões profundas sobre sua jornada no cenário musical brasileiro.
Desafios iniciais e descoberta da autenticidade
Negra Li recordou os primeiros passos em um ambiente predominantemente masculino, onde a disciplina foi sua principal aliada. "Foi desafiador no início. Mas depois eu fui descobrir que poderia ser eu mesma, de me vestir do jeito que eu quisesse", afirmou a cantora, destacando como encontrou sua voz e estilo únicos ao longo do tempo.
Evangélica assumida, a artista também abordou como sua religião a levou a ser associada a um lado político específico. "Fizeram propagandas ruins, mas já começaram a mudar isso", comentou, explicando que para ela, trabalho e fé caminham juntos. "Deus gosta de rap. Ele me permite estar e eu já consagrei tudo que eu faço. Quando não é, não dá certo".
A busca por referências e o papel de pioneira
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando Negra Li falou sobre representatividade. A cantora emocionou-se ao lembrar sua infância, quando não encontrava figuras com quem pudesse se identificar. "Eu me tornei a referência que tanto busquei, que tanto precisei na minha infância", declarou com orgulho.
Ela citou a importância de ver a dançarina Adriana Bombom como assistente de palco no programa da Xuxa, e também a atriz Taís Araújo em 'Xica da Silva'. "Aquilo me deu um gás", afirmou, reconhecendo como essas representações foram fundamentais para sua formação.
Negra Li também comentou sobre o momento em que a cantora Ebony foi eleita Melhor Artista Revelação no Women's Music Awards, mesmo com anos de carreira, e mencionou sua influência. "Tomem, desavisados. Eu fui ignorada, não só por esse prêmio. E eu não falo com ego, tô falando como básico, olhando de fora pra dentro. Não tem muitas! A Negra Li que contribuiu pra música preta, cantando de fé pro povo... vai ignorar?".
Trajetória musical e parcerias significativas
A artista revelou o apoio fundamental que recebeu do falecido Chorão durante sua transição do rap para um pop mais dançante. "Ele falava: 'Você é diva da música'", recordou com carinho. No entanto, essa mudança gerou críticas, incluindo a criação de uma comunidade 'Eu odeio Negra Li' no Facebook. "A galera não entendia, mas boa parte era acreditar que o rap era uma potência", explicou.
Redes sociais, ansiedade e responsabilidade social
Ao falar sobre a música "Fake", que aborda os haters, Negra Li confessou que o uso excessivo das redes sociais a levou a uma crise de ansiedade. "Todo dia eu tenho vontade de me afastar das redes. A gente perde um tempão. Se você não tomar cuidado, você perde a noção da realidade. É assustador o que está acontecendo com os adolescentes", alertou.
Sua participação no "Poesia Acústica 7" também gerou polêmica, com críticas aos versos que abordavam questões sociais. "Eu precisava falar, gente, não é só isso. Vocês tão falando sobre 'pegar a novinha atrás do carro', beleza. Mas a gente tem que lembrar também que tão matando pessoas pretas, olha o feminicídio... não estamos vivendo no país das maravilhas. Vocês precisam acordar", defendeu a cantora.
Negra Li admitiu que a recepção negativa foi difícil. "Fui ver a idade e desisti. Tava querendo convencer pessoas de 17 anos. Como vou fazer isso se não é só a música? Eles compram lifestyle. Eles compram aquela vida que brilha aos olhos deles. Vai olhar meu Instagram e vai ver uma mãe no seu dia a dia, mulher, 40+", finalizou, mostrando a realidade por trás das redes sociais.



