Superlotação em bloco com Calvin Harris em SP reacende debate sobre segurança no Carnaval
Superlotação em bloco de SP reacende debate sobre segurança

Superlotação em bloco com Calvin Harris reacende debate sobre segurança no Carnaval paulistano

Os episódios de superlotação e tumulto registrados durante o pré-carnaval na Rua da Consolação, no último domingo (8), reacenderam o debate sobre o modelo adotado para grandes blocos de rua em São Paulo. Cercados por gradis, tapumes e corredores estreitos, foliões relataram sensação de sufoco e dificuldade para deixar o local, cenário que já se repetiu em outros endereços da cidade, como Avenida 23 de Maio, Avenida Tiradentes e entorno do Parque do Ibirapuera.

Modelo de contenção gera críticas de especialistas

A capital paulista utiliza gradis de forma contínua ao longo de trechos dos desfiles, criando corredores fechados para circulação e revista do público. Uma nota técnica elaborada pela Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) afirma que o uso de gradis em eventos de massa pode ser essencial para a preservação da vida e da ordem pública, desde que siga critérios técnicos rigorosos de planejamento, instalação e operação.

Para especialistas ouvidos, o confinamento de grandes multidões em espaços estreitos, sem rotas laterais de escape, cria um cenário de risco mesmo sem violência. Eles também criticam a lógica de gestão baseada na contenção dos fluxos e o uso de gradis metálicos, considerados mais rígidos e perigosos do que os modelos plásticos.

Comparação com outras capitais brasileiras

O modelo adotado em São Paulo para a organização do carnaval de rua também é mais restritivo do que o aplicado em outras capitais conhecidas por eventos de grande porte, como Recife, Rio, Salvador e Belo Horizonte, que usam gradis somente para controlar o comércio autorizado e impedir a entrada de recipientes de vidro nos principais polos da festa.

"O que a gente viu foi a limitação do espaço com tapume e com gradis amarrados entre si e sem saídas alternativas. Isso foi o grande diferencial errado nesse momento", afirma a professora e pesquisadora de turismo urbano da Universidade de São Paulo (USP), Mariana Aldrigui. Segundo ela, densidades elevadas de público tornam o risco inevitável. "Seis pessoas por metro quadrado já é uma situação extremamente desconfortável. Se uma pessoa derrapa, a gente passa a ter pisoteamento", explica.

Falhas no planejamento e agravamento da situação

No domingo, o bloco Skol, com o DJ escocês Calvin Harris, e o cortejo do megabloco Acadêmicos do Baixo Augusta aconteceram no mesmo local, em horários muito próximos, contrariando as próprias regras da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Além dos gradis nos blocos da Consolação, o fato de a Praça Roosevelt, ao final do circuito, estar fechada com tapumes, prejudicou a dispersão dos foliões, que ficaram sem válvula de escape. Nesta quinta-feira (12), a Prefeitura reviu a medida e retirou os tapumes.

Para o arquiteto e urbanista Igor Guatelli, professor da FAU-Mackenzie e pesquisador associado da ENSA Paris-La Villette, os gradis usados como solução de segurança acabam funcionando como dispositivos de contenção, que reduzem as possibilidades de circulação e saída. "Esses gradis são obstáculos. Ao determinar por onde a população deve sair, eles inviabilizam outras possibilidades", diz. "Todo dispositivo que pré-determina saídas bloqueia outras formas da multidão se disseminar. Você cria um túnel, um corredor, e não tem para onde ir. Aí as pessoas entram em desespero."

Reações do poder público e medidas anunciadas

Após os episódios, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaurou um inquérito preliminar para apurar a superlotação e recomendou ainda que a Prefeitura adote medidas de planejamento, controle e fiscalização no uso de áreas públicas durante o carnaval de 2026.

Na segunda-feira (9), o prefeito Ricardo Nunes classificou o pré-carnaval como "um sucesso" mesmo diante dos problemas registrados. Ao falar sobre a superlotação e o atendimento dos feridos durante o bloco Skol, o prefeito disse que "nenhum caso foi considerado muito grave". "Em grandes eventos, como foi o caso da Ivete Sangalo [ocorrido no sábado, 7], sempre fazemos avaliações para melhorar", disse ele.

Apesar disso, na mesma segunda a prefeitura afirmou que a gestão vai reforçar o plano de contingência do carnaval de rua no próximo fim de semana. Entre as medidas anunciadas estão:

  • Ampliação das saídas para o público
  • Presença de um agente da prefeitura dentro de cada trio elétrico dos megablocos
  • Mais saídas em grandes circuitos, como o do Ibirapuera
  • Reposicionamento de postos de saúde para agilizar o atendimento

Análise especializada sobre o problema estrutural

Segundo Marcelo Vilela de Almeida, professor do curso de Lazer e Turismo da USP, os episódios indicam falhas na capacidade do poder público de planejar e gerenciar eventos de grande porte, reforçando a necessidade de rever estratégias e priorizar o interesse coletivo. "O carnaval virou um grande negócio, orientado pelo lucro, e isso acaba colocando em risco a integridade física de quem está na rua. O que se viu expõe a dificuldade do poder público em gerir um evento que saiu completamente do controle", afirmou o especialista.

A professora Mariana Aldrigui destaca que São Paulo tem experiência em eventos de grande porte e tecnologia disponível para evitar superlotação. "Durante a pandemia, a cidade usou dados de telefonia para medir aglomeração. Esse contrato existe. Dá para trabalhar com números reais", afirma. "O que parece é que os especialistas em segurança de multidões não estão sentados na mesma mesa de planejamento."

O debate continua aberto enquanto a cidade se prepara para os próximos dias de festa, com a população e especialistas atentos às medidas que serão implementadas para garantir a segurança dos foliões.