Prefeitura de São Paulo divulga lista oficial de 630 blocos para o Carnaval 2026
São Paulo tem 630 blocos no Carnaval 2026; organizadores criticam demora

Prefeitura de São Paulo divulga lista oficial com 630 blocos para o Carnaval 2026

Após enfrentar críticas por uma demora considerável na divulgação, a Prefeitura de São Paulo tornou pública, nesta sexta-feira (23), a lista oficial dos blocos de rua que vão animar o Carnaval 2026 na capital paulista. A publicação ocorre a apenas 15 dias do início da folia, gerando preocupações entre os organizadores sobre o planejamento e a captação de recursos.

Programação e distribuição dos blocos pela cidade

A relação completa, divulgada no Diário Oficial do Município, reúne um total de 630 desfiles programados, que serão distribuídos ao longo do pré-carnaval (7 e 8 de fevereiro), dos dias principais da festa (14, 15, 16 e 17 de fevereiro) e do pós-carnaval (21 e 22 de fevereiro).

A região da Sé, localizada no Centro da cidade, concentra o maior número de agremiações, com 157 blocos agendados, o que representa aproximadamente um quarto de todos os desfiles. Entre os nomes tradicionais e de grande apelo popular estão:

  • Pipoca da Rainha com Daniela Mercury
  • Meu Santo é Pop
  • Minhoqueens
  • Bloco Je Treme Mon Amour
  • Explode Coração
  • Domingo Ela Não Vai

Em segundo lugar, aparece o distrito de Pinheiros, na Zona Oeste, com 92 desfiles. Destaques incluem o Bloco Casa Comigo e o Bloco do Abrava, do cantor e ator Tiago Abravanel, que tradicionalmente atraem multidões em suas apresentações.

Críticas dos organizadores e falta de diálogo

Organizadores dos blocos têm manifestado insatisfação com a demora na organização e cobram um diálogo mais efetivo com a prefeitura. Eles argumentam que a tardia divulgação da programação oficial dificulta significativamente o planejamento e a captação de recursos necessários para a realização dos eventos.

José Cury Filho, coordenador do Fórum Aberto dos Blocos de Carnaval de São Paulo, que reúne cerca de 200 agremiações, explica: “Se o bloco não sabe se vai sair, não consegue vender cota de apoio nem se organizar financeiramente”.

Em setembro do ano passado, a prefeitura publicou um decreto que criou a Comissão Especial de Organização do Carnaval de Rua 2026. No entanto, o grupo é formado apenas por secretarias, órgãos e empresas municipais, sem a participação popular ou representação dos blocos.

Para Zé Cury, as decisões da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) são tomadas sem considerar a experiência de quem efetivamente faz o carnaval de rua acontecer. “O diálogo está absolutamente esquecido. Não há uma autoridade constituída que considere a cultura do carnaval eleita para falar com os coletivos de blocos”, reforça.

Questões sobre fomento financeiro e impacto econômico

Os organizadores também questionam o modelo de fomento municipal, que atende apenas uma parte dos blocos e é definido muito próximo do carnaval, gerando disputas e desigualdades. Neste ano, somente 100 blocos foram selecionados para receber apoio financeiro de até R$ 25 mil cada um, totalizando R$ 2,5 milhões em recursos da gestão municipal.

No ano passado, o carnaval da cidade de São Paulo atraiu 16 milhões de foliões e movimentou impressionantes R$ 3,4 bilhões, com a criação de 50 mil empregos diretos e indiretos entre 22 de fevereiro e 9 de março.

Para os organizadores ouvidos, apesar do impacto econômico expressivo e da arrecadação de impostos gerada pela festa, o retorno em políticas públicas para os blocos é considerado extremamente baixo, representando menos de 0,07% do total movimentado.

Thais Haliski, organizadora do bloco Acadêmicos da Cerca Frango e uma das fundadoras da Comissão Feminina do Carnaval de Rua, relata que os custos para colocar um bloco na rua cresceram de forma exponencial nos últimos anos. Segundo ela, despesas com caminhão, cordeiros, ensaios em estúdio e estrutura básica podem ultrapassar R$ 60 mil, valor muito superior ao fomento oferecido pela prefeitura. “O recurso não cobre nem metade do custo real”, afirma.

Defesa de uma política pública permanente

Tanto Thais quanto Cury defendem a criação de uma política pública permanente para o carnaval de rua, com regras claras, planejamento antecipado e participação direta dos blocos nas decisões. Eles argumentam que a ausência de uma legislação específica faz com que cada gestão altere o modelo da festa, gerando insegurança e desgaste para quem organiza.

Thiago França, fundador da Espetacular Charanga do França, complementa: “Estou indo para o meu 11º carnaval, e é a quarta gestão [na prefeitura]. As pessoas vêm e vão. Quem está há dez anos fazendo carnaval sou eu. Quem sabe fazer sou eu, são os blocos que sabem fazer”.

França também destaca que, embora o impacto econômico seja frequentemente enfatizado pela gestão pública, o aspecto cultural da festa é negligenciado. “O faturamento é importante para a prefeitura e para quem não conhece o carnaval, para entender a dimensão. Mas, culturalmente, isso é a nossa identidade”, afirma.

Posicionamento da prefeitura

Em resposta, a Prefeitura de São Paulo informa que o cronograma do Carnaval de Rua 2026 segue a programação divulgada desde setembro do ano passado e não há qualquer atraso. A gestão destaca que mantém a Central Permanente do Carnaval, um canal direto de diálogo e orientação, com atendimento presencial, por telefone, WhatsApp e e-mail.

Sobre o fomento, a prefeitura ressalta que os R$ 2,5 milhões são destinados a um dos segmentos do Carnaval, uma festa de grande porte que envolve diversas frentes culturais e de organização. O montante permite que até 100 blocos recebam R$ 25 mil cada para a produção, o desenvolvimento e a difusão das atividades do Carnaval de Rua em 2026.

Contudo, segundo Thiago França, o canal de comunicação não funciona na prática. “Você liga lá e conta os seus problemas. O pessoal diz que vai ver e retornar. E nada é dado sequência. Os blocos não são ouvidos, e a gente tem demandas”, desabafa.