Salgueiro fez história em 1960 com enredo pioneiro sobre escravidão no Brasil
Salgueiro: enredo pioneiro sobre escravidão em 1960

Salgueiro revoluciona o carnaval com enredo pioneiro sobre escravidão em 1960

O ano de 1960 ficou marcado na história do carnaval brasileiro por um desfile audacioso e transformador. A escola de samba Salgueiro, sob a liderança do carnavalesco Fernando Pamplona, apresentou o enredo 'Quilombo dos Palmares', uma narrativa pioneira que retratou a escravidão no Brasil e a luta por liberdade liderada por Zumbi. Este desfile não apenas rendeu à escola seu primeiro título, mas também enfrentou resistências internas e desafios climáticos, consolidando-se como um marco cultural de coragem e inovação.

O contexto histórico e a ousadia do tema

Convidado por Nelson de Andrade, presidente da Salgueiro, Fernando Pamplona assumiu o comando artístico com uma missão ousada. Após estudar profundamente a história do quilombo e as estratégias de guerrilha dos escravos, ele impôs o tema sem oferecer uma segunda opção, algo inédito na época. A equipe criativa, incluindo a suíça Marie Louise Nery, seu marido Dirceu, Nilton de Sá e o figurinista Arlindo Rodrigues, colaborou para montar um desfile suntuoso e significativo.

Para o samba-enredo, foram recrutados compositores como Noel Rosa e Anescarzinho, enquanto uma opção alternativa de Djalma Sabiá enfatizava ainda mais a revolta contra a escravidão. O enredo foi dividido em cinco partes claras:

  • O cativeiro, retratando a opressão sofrida pelos escravizados.
  • A luta, mostrando a resistência e as batalhas por liberdade.
  • Os quilombos, destacando a organização das comunidades fugitivas.
  • O séquito de Zumbi, celebrando a liderança do herói negro.
  • A nação livre, simbolizando a conquista da autonomia.

Desafios e resistências internas

Além da ousadia temática, o desfile enfrentou obstáculos significativos. Parte dos integrantes da escola resistiu a vestir fantasias de escravos, acreditando que isso contrariava o glamour tradicional do carnaval. Pamplona, no entanto, manteve-se inflexível, argumentando que o protagonismo negro seria inédito e atrairia a atenção da mídia, colocando a Salgueiro nas capas dos jornais.

O desfile ocorreu sob forte chuva, mas a perseverança da escola prevaleceu. A participação de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, acrescentou um toque de representatividade e talento, reforçando a importância cultural do evento.

Polêmicas e a conquista do título

Apesar de ser apontada como favorita pela imprensa, a Salgueiro inicialmente foi derrotada pela Portela devido a um atraso causado pelas condições climáticas, que não era culpa das escolas. Em meio à polêmica, o presidente da Portela, Natal da Portela, tomou uma decisão histórica: dividir o título com as quatro agremiações que figuravam no Top 5. Assim, a Salgueiro conquistou seu primeiro título oficial, entrando para a história não apenas como vencedora, mas como pioneira na abordagem de temas sociais no carnaval.

Este desfile marcou o início de uma série de enredos sobre figuras históricas negras, como Xica da Silva e Chico Rei, solidificando o legado de Pamplona e da Salgueiro. A vitória de 1960 simboliza um momento de ruptura e inovação, mostrando como o carnaval pode ser uma plataforma poderosa para discutir a história e a identidade brasileira, inspirando gerações futuras a celebrarem a diversidade e a resistência.