Única carnavalesca da Sapucaí em 2026 desabafa sobre machismo no Carnaval
Annik Salmon, com 44 anos, é a única carnavalesca em atividade no Carnaval do Rio de Janeiro em 2026, liderando os preparativos da escola de samba Arranco de Engenho de Dentro, que compete na Série Ouro. Em entrevista exclusiva, ela reflete sobre a ausência feminina nos cargos criativos de elite do samba, um cenário que se agravou com a morte de Rosa Magalhães e Márcia Lage no ano passado, deixando-a como a única representante feminina nessa posição.
Desafios e preconceitos enfrentados por mulheres no Carnaval
Annik Salmon descreve sua experiência como bastante dura, destacando que as mulheres são frequentemente subestimadas no ambiente carnavalesco. Ela relata ter ouvido comentários de que só servia para dar um toque feminino ou que seus enredos não tinham força para conquistar títulos. No entanto, ela transforma essa crítica em motivo de orgulho, afirmando que seu olhar feminino enriquece o trabalho com detalhes e preocupação com o conforto dos componentes, sem perder a essência luxuosa do Carnaval.
Segundo Annik, o machismo no Carnaval reflete uma base social patriarcal, onde ainda se espera que a mulher se limite aos papéis de esposa, mãe e dona de casa. Ela compartilha que, como mãe, enfrenta o desafio de equilibrar a vida familiar com a gestão do barracão, especialmente na Série Ouro, onde os recursos podem ser mais limitados.
O olhar feminino e a representatividade na Avenida
Annik Salmon inicialmente resistia à ideia de um olhar feminino, mas hoje abraça esse conceito como parte fundamental de sua criação. Suas vivências como mulher a inspiraram, por exemplo, na fantasia com faixas de resistente no Carnaval 2025, uma resposta à noção de sexo frágil. Ela acredita que essa perspectiva única permite contar histórias mais autênticas e diversificadas na Avenida.
Para o Carnaval 2026, Annik escolheu exaltar Xamego, a primeira palhaça negra do Brasil, em um enredo que resgata figuras femininas históricas muitas vezes esquecidas. Ela destaca a importância de levar essas narrativas para o Carnaval, museus e salas de aula, preservando a memória de grandes mulheres brasileiras.
Falta de representatividade e caminhos para mudança
A carnavalesca aponta que a sociedade desacredita as mulheres em atividades fora da esfera doméstica, o que desencoraja muitas a seguirem carreiras como a sua. A falta de exemplos e representatividade torna difícil para outras mulheres alcançarem posições de destaque no Carnaval. Annik celebra a presença feminina na Arranco de Engenho de Dentro, com Pâmela como intérprete e Laísa como mestra de bateria, mostrando que é possível, embora desafiador, romper essas barreiras.
Para mudar essa realidade, Annik planeja realizar oficinas no barracão até fevereiro, ensinando suas técnicas e conhecimentos a novas profissionais. Seu sonho é um dia conquistar o título do Carnaval com uma equipe repleta de mulheres talentosas, inspirando futuras gerações a transformar a exceção em regra no mundo do samba.