Ney Matogrosso será homenageado pela Imperatriz Leopoldinense no próximo Carnaval
No Rio de Janeiro, um encontro histórico está prestes a acontecer: o cantor Ney Matogrosso, aos 84 anos, finalmente aceitou ser o grande homenageado da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. O enredo "Camaleônico" promete unir o artista que sempre desafiou convenções com a festa que é pura ousadia.
Um convite que realizou um sonho
Demorou, mas não foi por falta de tentativas. Segundo o próprio Ney Matogrosso, foi necessário chegar a uma fase da vida onde aceita mais propostas. "Quando o Leandro me ligou, ele foi esperto. Disse: 'Não vai negar um sonho'. Perguntei qual era e ele respondeu: 'Você ser homenageado'. Então eu disse: 'Tá. Vamos fazer'", revela o cantor.
O convite partiu de Leandro Vieira, carnavalesco da agremiação, mas também admirador de longa data. "A voz do Ney traz a memória dos meus pais, porque inicialmente era um vinil que tocava na casa deles. Mas depois vêm todas as imagens que acompanham. Como pessoa que trabalha com linguagem estética, Ney Matogrosso traz um universo muito exuberante", explica Vieira.
Participação ativa na criação do desfile
Não bastou apenas aceitar a homenagem: Ney Matogrosso mergulhou de cabeça no processo criativo. Visitou os barracões da escola e viu sua história ganhar forma, cor e brilho. "Eu ficava enlouquecido. Esse camarada é danado, porque eu via cada figurino... E reconhecia os figurinos referentes a que música", recorda o artista, visivelmente emocionado.
Momentos emblemáticos de sua carreira desfilarão pela Sapucaí, representando o artista de mil faces: ora homem de Neandertal, ora bandido, sempre um "Homem com H" de "Sangue Latino". Nos barracões, cercados de segredos que só serão revelados na avenida, prepara-se uma homenagem grandiosa.
Alegorias e transformações na avenida
Uma das canções de maior sucesso do homenageado, "O Vira", se transformou em uma impressionante alegoria: um lobisomem gigantesco que chega a 20 metros de altura e ganhará movimentos durante o desfile. Como diz o samba da escola, Ney é meio homem, meio bicho - um artista múltiplo que não cabe em definições únicas.
Para Leandro Vieira, a metáfora do camaleão é perfeita: "O camaleão dá esse sentido de transformação contínua. Estamos falando de um artista que agora está com 84 anos e que nunca aceitou a norma como regra para sua vida". Este enredo camaleônico promete colorir a Sapucaí, provocar, transgredir e celebrar a trajetória de quem sempre usou corpo e voz em nome da liberdade.
A insubordinação como elemento comum
O próprio Ney Matogrosso reflete sobre sua identidade única: "Como eu não tinha esse problema se parecia masculino ou feminino, achava até bom. Gostaria que me vissem como um inseto, como um réptil". E os preparativos já começaram com um esquenta especial: Ney recebeu a bateria da Imperatriz em um de seus shows no Rio, com participação de Iza, rainha de bateria da escola.
"O que vai acontecer na Sapucaí é realmente a apoteose de tudo de mais maravilhoso que ele criou. E é muita coisa. Estamos com sangue nos olhos, sangue latino, para fazer tudo acontecer como Ney e a Imperatriz merecem", afirma Iza com entusiasmo.
Timidez e performance na avenida
Apesar de toda experiência cênica, Ney confessa certa timidez: "Acho estranho, fico meio envergonhado. Sou tímido, por incrível que pareça. Fico pensando: estou cantando sobre mim mesmo? Mas vou cantar". Quanto a sambar, tem solução: "Falei para o Leandro que não sei sambar. Ele disse: 'Mas você não precisa sambar, tem que performar como você faz'. Disse: 'Está bom'. Ficou mais fácil para mim".
Para o carnavalesco Leandro Vieira, a conexão é profunda: "O que há em comum entre Ney e o carnaval é a coisa que mais admiro na festa: a insubordinação. São dois corpos insubordinados que produzem beleza. Ney Matogrosso, na minha cabeça, é o carnaval em pessoa".
Assim, o artista que nunca se encaixou em definições únicas encontra sua tradução perfeita na maior festa popular brasileira, prometendo um espetáculo que celebrará décadas de ousadia artística e liberdade expressiva.