MP-SP abre investigação sobre superlotação em blocos de carnaval após tumultos na capital paulista
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deu início a um inquérito preliminar para apurar os episódios de superlotação que ocorreram durante os desfiles de carnaval no último domingo (9) na Rua da Consolação, no Centro da capital paulista. A medida foi tomada após a divulgação de novos vídeos que mostram a confusão generalizada entre foliões, incluindo cenas de tumultos, brigas e pessoas feridas.
Dois megablocos no mesmo local geram caos
Conforme apurado, o bloco Skol, com a presença do renomado DJ escocês Calvin Harris, e o tradicional cortejo do megabloco Acadêmicos do Baixo Augusta aconteceram no mesmo local, em horários muito próximos. Essa sobreposição de eventos resultou em uma aglomeração massiva de pessoas, ultrapassando a capacidade do espaço e causando situações de risco para os participantes.
A Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo da Capital confirmou, por meio de nota oficial, que "instaurou procedimento para apurar a superlotação do bloco de carnaval ocorrido neste domingo (09) na Rua da Consolação". O caso já mobiliza diversas esferas do poder público e da sociedade civil.
Oposição aciona MP-SP e critica gestão municipal
Parlamentares da oposição não perderam tempo e formalizaram representações junto ao Ministério Público. O vereador Nabil Bonduki (PT), que também é urbanista e professor da Universidade de São Paulo (USP), declarou publicamente que está "acionando o Ministério Público para que seja realizada, em caráter de urgência, uma reunião entre a Prefeitura, a Polícia Militar e os demais envolvidos na organização do carnaval de rua".
Bonduki foi enfático ao afirmar que "cenas como as de hoje não podem se repetir nos próximos desfiles". Em suas redes sociais, o petista acrescentou: "Essa prévia de tragédia não pode se repetir, e é fundamental identificar e responsabilizar quem permitiu que essa situação ocorresse. Interesses comerciais não podem ficar acima da segurança da população".
A deputada federal Érika Hilton (PSOL) e a vereadora Amanda Paschoal (PSOL) também protocolaram uma representação no MP-SP, pedindo a investigação do prefeito Ricardo Nunes (MDB) por "gestão temerária na organização do carnaval de rua de 2026". Segundo o documento apresentado pelas parlamentares, "a gestão municipal autorizou de forma consciente a realização de dois megablocos no mesmo local e horário, apesar de alertas prévios sobre os riscos da sobreposição".
Acusações de má gestão e prejuízos aos cofres públicos
As críticas da oposição vão além da questão da segurança. No documento protocolado, as parlamentares alegam que a decisão da prefeitura contrariou a lógica básica de organização do espaço urbano e que o contrato de patrocínio do carnaval de rua "permitiu que a empresa patrocinadora explorasse comercialmente o evento e negociasse cotas com outras marcas, enquanto a cidade recebeu apenas o valor mínimo previsto no edital".
Para as autoras da representação, essa situação indica uma má gestão de um evento público de grande porte, com potencial prejuízo aos cofres municipais e impacto direto na estrutura e na segurança da festa popular.
Defesa do prefeito e justificativas oficiais
Em contrapartida, o prefeito Ricardo Nunes classificou o pré-carnaval como "um sucesso" durante entrevista à GloboNews nesta segunda-feira. "Se considerarmos a quantidade de pessoas e as poucas ocorrências, a conclusão é que foi um sucesso", afirmou o gestor, referindo-se ao primeiro fim de semana de carnaval oficial.
Ao ser questionado sobre a superlotação e o atendimento aos feridos durante o bloco Skol, Nunes minimizou a gravidade dos casos: "nenhum caso foi considerado muito grave". O prefeito ainda defendeu a infraestrutura montada pelo poder público, incluindo o aparato de segurança e de saúde, classificando-a como "perfeita".
Nunes também reagiu às críticas do Baixo Augusta, que emitiu nota cobrando mais organização. "Com a grande quantidade de público no bloco da Skol, sem que tivesse grandes ocorrências devido ao trabalho da prefeitura e Polícia Militar, ele deveria é reconhecer, bem como reconhecer também que o público do Calvin ficou para curtir o bloco dele. Os blocos desfilaram em horários diferentes, primeiro o Skol e depois o Baixo Augusta", justificou o prefeito.
Posicionamento do governador e da Polícia Militar
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também se manifestou sobre o caso, afirmando que "não dá para ter 1,5 milhão de pessoas na Consolação" e reconhecendo que o carnaval de rua da capital "está cada vez mais concorrido". Na avaliação do governador, a prefeitura e a Polícia Militar agiram com rapidez na remoção de gradis, interrupção de ruas e liberação das vias transversais, o que permitiu o escoamento das pessoas.
A Polícia Militar emitiu nota informando que, devido à superlotação na Avenida da Consolação, diversas estratégias foram adotadas a partir da Sala de Gerenciamento de Incidentes, instalada no COPOM da corporação. O local foi monitorado em tempo real por meio de imagens aéreas, tanto do helicóptero da PM quanto de drones.
Segundo a PM, "os órgãos parceiros, como Metrô, CET, Prefeitura, GCM e demais instituições envolvidas, estão presentes na Sala de Gerenciamento de Incidentes, o que permite a coordenação integrada das ações". A corporação afirmou ainda que, com base na observação aérea e na atuação conjunta, medidas foram adotadas para garantir a fluidez e a segurança dos foliões, e que até o momento não há registro de feridos em seus boletins oficiais.
Reclamação dos organizadores do Baixo Augusta
Em nota oficial, o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta expressou seu descontentamento, afirmando que teve seu cortejo "desrespeitado de forma triste e violenta". O texto destaca: "É uma imensa falta de organização e o não cumprimento dos horários acordados. Com 17 anos de história, o maior bloco da cidade e um dos maiores do Brasil foi desrespeitado de forma triste e violenta, mostrando a todos uma prova clara da falta de competência para realizar o que foi proposto e do compromisso da cidade com os blocos que recriaram o carnaval de São Paulo".
O caso continua em desenvolvimento, com o Ministério Público acompanhando de perto as investigações sobre as responsabilidades pela superlotação que marcou o pré-carnaval paulistano.