Intérprete da Acadêmicos de Niterói equilibra samba e trabalho em torres de 60 metros
Enquanto no carnaval Emerson Dias arranca aplausos da arquibancada ao puxar sambas com sua voz potente, fora da Avenida ele eleva seu tom de uma forma bem diferente: pendurado em torres de telecomunicações que chegam a 60 metros de altura. O intérprete da Acadêmicos de Niterói, além de sua carreira artística, atua como técnico de telecomunicações, dedicando-se a afinar não apenas sua performance vocal, mas também o sinal de celular em pontos estratégicos da cidade. Em uma rotina que mistura arte e técnica, ele já teve que sair diretamente de um desfile para resolver uma emergência em uma antena, tudo isso ainda vestido com a fantasia de intérprete.
Trajetória entre o samba e as alturas
A ligação de Emerson Dias com o carnaval é profunda e remonta à sua infância. "Eu nasci dentro da academia de samba do Salgueiro", revelou o artista, destacando suas passagens por 18 anos na Grande Rio, um retorno ao Salgueiro e, atualmente, sua atuação na Acadêmicos de Niterói. "Hoje estou aqui pra gente fazer muita festa, muita alegria", afirmou, demonstrando seu entusiasmo pela agremiação. Entre os ensaios e apresentações, Emerson encontra inspiração em um local incomum: no topo das torres de telecomunicações, onde poucos se arriscam a cantar. "Eu trabalho subindo torre, pendurado. Gosto de fazer essa junção: estar lá em cima cantando samba e pensando no que vou fazer no próximo ensaio", contou, mostrando como integra suas duas paixões.
Em sua rotina como técnico, Dias sobe até 60 metros do chão para realizar manutenções e corrigir falhas em equipamentos de telefonia celular. "Pode ser 10, 20, 30, 60 metros, dependendo do tamanho da torre", explicou. "São coisas que eu sou apaixonado na vida: cantar no Carnaval e trabalhar em telecomunicação. Sou um privilegiado", completou, enfatizando a satisfação em conciliar essas atividades tão distintas.
Emergências no meio do desfile
Nem sempre é possível separar o samba do serviço, e Emerson Dias tem histórias que comprovam isso. Como técnico responsável pela Marquês de Sapucaí na operadora onde trabalha, ele já foi acionado em momentos cruciais. "Eu tenho um bordão que é 'Tá aí a surpresa'", brincou, referindo-se aos imprevistos que enfrenta. Segundo ele, em uma ocasião, estava quase na hora de entrar para desfilar quando recebeu uma mensagem urgente do chefe avisando: "A estação parou!". A solução veio no improviso: "Quando terminou o desfile, eu voltei por dentro [do Sambódromo] para resolver o problema — vestido de intérprete. O segurança não entendeu nada!", relatou, rindo da situação.
Dias também menciona que muitas pessoas se surpreendem ao vê-lo paramentado com uniforme, cinto de segurança e capacete, realizando manutenções, especialmente quando a antena está localizada no alto de um prédio. "Entro no elevador, e a pessoa dá de cara comigo. 'Ih, é o Emerson'. Eu falo: 'Sou eu mesmo!'", contou, destacando o choque inicial que sua dupla identidade causa nos outros. Essa vida dupla foi tema do primeiro episódio da temporada do programa Apoteose do Samba, da TV Globo, que neste ano aborda o tema "Gente que faz", mostrando os bastidores do carnaval e histórias como a de Emerson, que equilibra com maestria a arte e a técnica em alturas impressionantes.