Grande Rio se prepara para celebrar o Manguebeat na Sapucaí em 2026
A Acadêmicos do Grande Rio está pronta para levar um enredo histórico e culturalmente significativo para a Avenida Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2026. Como penúltima escola a desfilar na terça-feira, com início previsto entre 0h55 e 1h15, a agremiação apresentará "A Nação do Mangue", uma homenagem ao movimento Manguebeat que revolucionou a música e a cultura pernambucana a partir dos anos 1990.
O enredo: da lama à revolução cultural
O enredo começa simbolicamente na lama, nas margens do Recife, onde o rio encontra o mar e forma o mangue. Por muito tempo, essa região foi estigmatizada como um lugar de pobreza, sujeira e abandono. No entanto, os moradores locais sempre souberam que o mangue é um ecossistema fértil e cheio de vida, servindo como berçário para peixes, caranguejos e comunidades humanas.
Foi desse ambiente que emergiu uma nova ideia no início da década de 1990. Jovens das periferias do Recife começaram a afirmar que a cidade estava doente, paralisada e sem energia. Eles acreditavam que a cura não viria das elites, mas sim das margens, das bases sociais. Assim nasceu o Manguebeat, um movimento cultural liderado por figuras como Chico Science.
Artistas do movimento realizaram uma fusão inovadora, misturando ritmos tradicionais nordestinos como maracatu, coco e ciranda com gêneros contemporâneos como rock, hip-hop e música eletrônica. O som resultante tinha a batida característica do mangue e uma conexão global, representando uma síntese única de tradição e modernidade.
Transformação simbólica e impacto cultural
O Manguebeat transformou o mangue em um símbolo poderoso. A lama, antes associada à sujeira, tornou-se sinônimo de força; o caranguejo, um personagem emblemático; e a periferia, um centro de criação e resistência. As músicas do movimento abordavam temas como desigualdade, fome e abandono, mas também celebravam a festa, a invenção e a resiliência.
Esse som transcendeu fronteiras geográficas, inspirando artistas em todo o Brasil e alterando o panorama da música nacional. O Manguebeat demonstrou que a cultura das margens podia falar alto, criar, liderar e transformar, tornando-se uma nação simbólica sem fronteiras, construída sobre ritmo, atitude e identidade.
Ao contar essa trajetória, a Grande Rio estabelece uma ligação profunda entre Recife e Duque de Caxias, duas cidades anfíbias, dois territórios de mangue e duas periferias repletas de potência cultural. A escola carrega para a Sapucaí não apenas uma história, mas um manifesto de resistência e celebração.
O samba-enredo: voz da periferia
O samba-enredo, intitulado "Eu sou do mangue, filho da periferia", foi composto por uma equipe de autores talentosos e será interpretado por Evandro Malandro. A letra é um tributo vibrante às raízes do movimento, com versos que exaltam a resistência, a cultura popular e a conexão com a natureza.
Autores do samba: Ailson Picanço, Marquinho Paloma, Davison Wendel, Xande Pieroni, Marcelo Moraes e Guga Martins.
Trechos do samba destacam elementos como:
- A revolução que começa no mangue
- A herança cultural de Zumbi e das tradições afro-brasileiras
- A figura do caranguejo como símbolo de resiliência
- A fusão de ritmos como maracatu e batidas contemporâneas
- Homenagens a Chico Science e ao legado do Manguebeat
Ficha técnica da escola
A Grande Rio conta com uma equipe de destaque para levar esse enredo à avenida:
- Fundação: 22 de setembro de 1988
- Cores: Vermelho, Verde e Branco
- Presidente: Milton Abreu do Nascimento (Perácio)
- Carnavalesco: Antônio Gonzaga
- Intérprete: Evandro Malandro
- Rainha de Bateria: Virginia Fonseca
- Mestre de Bateria: Fabrício Machado (Fafá)
Com esse enredo, a Grande Rio não apenas celebra uma página importante da cultura brasileira, mas também reafirma o poder transformador da arte e a capacidade das vozes das margens de ecoar em todo o país. O desfile promete ser um momento emocionante, unindo história, música e resistência no maior palco do Carnaval brasileiro.