A icônica figura de Milton Cunha, há décadas sinônimo de alegria e exuberância no carnaval carioca, ganha um tributo especial com a exposição "Delírios e Brilhos da Sapucaí", aberta gratuitamente ao público nesta quinta-feira, 22 de janeiro, no Rio de Janeiro. A mostra, em cartaz na Academia Brasileira de Artes Carnavalescas (Abac), apresenta 120 ternos usados pelo apresentador e comentarista da TV Globo ao longo de sua carreira, oferecendo um mergulho visual e antropológico em sua trajetória.
Uma curadoria que vai além da moda
A curadoria é assinada por Célia Domingues, pesquisadora e vice-presidente da Abac, que propõe um olhar artístico sobre os ternos como extensões do corpo, da performance e do pensamento de Milton. "Esses ternos não são apenas roupas. São discursos visuais, narrativas de pertencimento, memória e celebração do carnaval como patrimônio cultural", afirma Célia. A seleção das peças foi feita com base nos eventos em que foram usadas, criando uma linha do tempo visual que inclui transmissões do carnaval, participações em programas como o 'Domingão do Huck', campanhas publicitárias e eventos internacionais.
Brilho como linguagem e identidade
Os ternos, que hoje somam mais de 300, começaram a ganhar protagonismo em 2013, quando Milton passou a investir sistematicamente em coleções anuais conceituais. "O Milton é sinônimo de alegria, de exuberância, e hoje é impossível falar de carnaval sem fazer referência a ele. Os ternos carregam essa essência, principalmente por meio do brilho e das estampas, que já são uma assinatura dele", destaca Célia. Durante a exposição, o público pode circular livremente pelo espaço, observando de perto bordados, tecidos, recortes e excessos que tornam essas peças reconhecíveis no carnaval contemporâneo, com a oportunidade adicional de usar quatro ternos do artista para fotos.
Um atestado de coragem e liberdade
Para Milton Cunha, de 63 anos, a exposição é mais do que uma celebração estética—é um gesto político e íntimo. "Essa exposição é um atestado de coragem. Porque através dessas roupas eu fui eu, eu sou eu. Não é só usar a roupa. É o espírito seguir junto com o espalhafato", diz ele. Revisitando sua trajetória desde a infância em Belém, no Pará, onde questionou padrões de gênero e aparência, Milton afirma: "Eu sempre fui um ET, mas um ET felicíssimo. Eu não queria fazer mal pra ninguém. Eu só queria ser feliz". Nos ternos bordados e coloridos, ele vê materializada a liberdade de quem nunca negociou a própria identidade, enfatizando: "O dono do teu corpo é tu. Se tu quiser se enfeitar, se monta. Se não quiser, tá tudo certo. Mas não vem com cinza pra cima de mim, não. Eu quero 'over the rainbow'".
Serviço e informações práticas
A exposição "Delírios e Brilhos da Sapucaí" fica em cartaz até 10 de fevereiro, com entrada gratuita e classificação livre. Os horários de funcionamento são:
- Segunda a sexta: das 10h às 18h
- Sábado: das 10h às 16h
O local é a Academia Brasileira de Artes Carnavalescas, localizada na Travessa do Ouvidor, nº 9, no Centro do Rio de Janeiro. A mostra não apenas homenageia a carreira de Milton Cunha, mas também reforça o carnaval como uma manifestação artística vital e diversa na cultura brasileira.