Escritora gaúcha defende enredo da Portela sobre cultura afro-gaúcha após críticas
Escritora gaúcha defende enredo da Portela sobre cultura afro-gaúcha

Escritora gaúcha rebate críticas e defende enredo da Portela sobre cultura afro-gaúcha

A escritora e podcaster Luana Carvalho, natural do Rio Grande do Sul e residente no Rio de Janeiro, publicou um vídeo em suas redes sociais para responder a questionamentos sobre o enredo da Portela para o Carnaval de 2026. A agremiação carioca homenageará a cultura afro-gaúcha com o tema "O Mistério do Príncipe do Bará", narrando a história do Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, figura africana fundamental para o Batuque no Sul.

Defesa da história negra gaúcha e combate ao silenciamento

Na gravação, Carvalho argumenta que o enredo é uma resposta a um "silenciamento histórico" sobre a população negra do estado. "Eu sei que deve ser difícil de engolir quando a realidade confronta uma ideia que você tem de um lugar e de uma gente que você desconhece", inicia. "Mas pra além de nós, negros gaúchos, existirmos, a nossa história merece ser contada. E a partir da nossa própria voz", completa.

Para a escritora, duvidar da importância do tema reforça a necessidade do desfile. "Continuar deslegitimando a existência e a importância das pessoas negras e gaúchas é dar as mãos para a ignorância", afirma. Ela ressalta que não existe apenas um tipo de negritude no Brasil e que os negros gaúchos estão cansados de sentir vergonha de suas origens.

Dados e relevância histórica da população negra no RS

O Censo 2022 revelou que o Rio Grande do Sul possui a maior proporção de praticantes de religiões afro-brasileiras do país, com 3,2% da população, contra 1% nacionalmente. Para reforçar a relevância, Carvalho cita conquistas históricas, como a criação do Dia da Consciência Negra em 20 de novembro, proposta por ativistas gaúchos em memória de Zumbi dos Palmares.

Everton Alfonsin, da Federação Afro-Umbandista Espiritualista do RS (FAUERS), explica que a forte presença dessas religiões no estado está ligada ao intenso tráfico de pessoas escravizadas da África para a região durante o período colonial.

Enredo profundo e conexão pessoal da escritora

O desfile da Portela em 2026 começará com o Negrinho do Pastoreio encontrando uma coroa levada ao orixá Bará, revelando a trajetória do Príncipe Custódio. Exilado, ele chegou ao Rio Grande do Sul, uniu nações africanas e ajudou a estruturar o Batuque, tornando-se um pilar da cultura afro-gaúcha. Em Porto Alegre, Custódio frequentava a elite e mantinha relações com políticos como Julio de Castilhos.

A conexão de Luana Carvalho com a escola se aprofundou em um voo, quando um samba da Portela a emocionou profundamente. "Jamais imaginei que a minha religião, a história da população negra do Rio Grande do Sul e uma das coisas que eu mais amo na vida que é a Portela estariam juntos", relata.

Sua ligação com o enredo é ainda mais pessoal: a equipe de carnavalescos usou uma postagem sua recomendando o documentário "Cavalo de Santo" como fonte de pesquisa. Como reconhecimento, a escola a informou sobre o tema antecipadamente e a convidou para desfilar como destaque.

Missão além do Carnaval

Para Carvalho, o desfile transcende a festa e se torna uma missão de visibilidade. "Eu quero que as pessoas olhem pra população negra do Rio Grande do Sul com mais respeito, com mais carinho, que as pessoas viajem pra lá pra conhecer a gente, pra conhecer o Batuque", afirma. "A gente tá meio que lutando sozinho, sabe? Tá meio que gritando, e o resto do país se nega a nos ouvir por conta de um estereótipo."

A Portela desfilará no domingo de carnaval, 15 de fevereiro de 2026, como terceira escola, com início previsto entre 0h55 e 1h15. O samba-enredo, interpretado por Zé Paulo Sierra, celebra a cultura e resistência negra gaúcha, com versos como "O Pampa é terra negra em sua essência" e "Portela… tu és o próprio trono de Zumbi".