Crise financeira ameaça tradição dos blocos de Carnaval em São Paulo
Enquanto o Bloco Pagu se prepara para celebrar a força feminina com um repertório que homenageia ícones como Rita Lee e Gal Costa, desfilando no centro da capital paulista, uma sombra de incerteza paira sobre a festa. Sem patrocínio e enfrentando dificuldades crescentes para fechar as contas, agremiações tradicionais do carnaval de rua de São Paulo alertam que o modelo atual de financiamento coloca em risco a realização dos desfiles.
Organizadores criticam gestão municipal e cobram mudanças
Os organizadores direcionam críticas ao valor e ao formato do fomento oferecido pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Eles exigem transformações profundas para garantir a sobrevivência de iniciativas ligadas à cultura local. No ano passado, o carnaval paulistano atraiu impressionantes 16 milhões de foliões e movimentou cerca de R$ 3,4 bilhões na economia da cidade.
Apesar desse impacto econômico significativo, apenas 100 blocos foram selecionados para receber apoio financeiro da prefeitura neste ano, com repasses que atingem no máximo R$ 25 mil para cada agremiação, totalizando R$ 2,5 milhões em recursos distribuídos.
Modelo atual não diferencia tamanhos e gera desigualdade
"O carnaval cresce, mas cresce de forma cara. Os blocos são muito diferentes entre si e os modelos precisam ser repensados para garantir a viabilidade da festa", afirma Mariana Bastos, fundadora do bloco feminista Pagu. Segundo ela, o edital municipal não estabelece distinções entre blocos pequenos, médios ou grandes, tampouco prevê um fomento proporcional à estrutura necessária para cada desfile.
O Pagu foi contemplado com os R$ 25 mil do apoio financeiro, mas os organizadores revelam que os gastos para colocar o bloco na rua alcançam a cifra de R$ 250 mil. "A gente ainda tem um problema grande com o crescimento dos megablocos de artistas muito consagrados, o que dificulta a disputa por marcas patrocinadoras, que priorizam essencialmente a visibilidade", complementa Mariana.
Falta de patrocínio já suspende desfiles na capital
A dependência de patrocínios privados e a desigualdade entre agremiações de diferentes portes já começam a mostrar consequências concretas. O Bloco do Sargento Pimenta anunciou recentemente que não vai sair às ruas de São Paulo neste ano por não ter conseguido apoio financeiro para viabilizar o cortejo.
Em comunicado divulgado nas redes sociais, a organização esclareceu que a decisão não foi motivada por falta de interesse em desfilar na cidade, onde mantém tradição desde 2013, mas pela impossibilidade de arcar sozinha com os custos do carnaval.
Já o megabloco Tarado Ni Você, apesar das adversidades, afirma que manterá o desfile neste ano. Na ausência de patrocínio, precisará recorrer a recursos próprios e a empréstimos bancários, alternativas que os organizadores classificam como extremas e sintomáticas do atual modelo de financiamento.
Custos exponenciais pressionam organizadores
A escalada dos custos representa um desafio monumental para os blocos. Thais Haliski, organizadora do Acadêmicos da Cerca Frango e uma das fundadoras da Comissão Feminina do Carnaval de Rua, relata que as despesas para colocar uma agremiação na rua cresceram de forma exponencial nos últimos anos.
Em 2019, era possível realizar um desfile com aproximadamente R$ 8 mil, contando com caminhão próprio, festas pontuais para arrecadação e ensaios feitos na rua. Atualmente, apenas para sair com um bloco de cerca de 5 mil pessoas, o custo mínimo varia entre R$ 60 mil e R$ 65 mil, incluindo aluguel de estúdios para ensaios e diversas despesas operacionais.
Além do valor considerado insuficiente, os organizadores reclamam do formato do repasse do fomento. Como o recurso é pago a pessoas físicas, há descontos e o valor líquido diminui consideravelmente. "Quando o dinheiro chega, os R$ 25 mil viram cerca de R$ 19 mil", afirma Thais.
Blocos médios também enfrentam dificuldades
A crise não poupa sequer os blocos de porte médio. O Bloco do Fuá, tradicional do Bixiga, no Centro da capital, que reúne cerca de 15 mil foliões, também relata que o crescimento do carnaval tornou a festa financeiramente inviável.
"[Virar bloco grande] só traz problema: exige mais estrutura, caminhão de som caro, segurança e bombeiros", afirma Marco Ribeiro, fundador do bloco. Segundo ele, o Fuá vai desfilar neste ano sem apoio público ou privado, arcando com custos anuais que giram em torno de R$ 50 mil.
A crítica é compartilhada por Lira Alli, da liderança do Arrastão dos Blocos. Segundo ele, várias agremiações estão com dificuldades para desfilar neste ano por falta de condições financeiras. "Isso mostra o desinteresse da atual gestão pelos blocos que fazem carnaval o ano inteiro", afirma.
Problema histórico e posicionamento da prefeitura
A dificuldade não é novidade. Em 2024, mais de 100 blocos suspenderam seus desfiles em São Paulo, citando falta de recursos e falhas no modelo de organização da festa. Na ocasião, o megabloco Domingo Ela Não Vai, que desfila na cidade desde 2016 e arrasta multidões, não desfilou por falta de patrocínio.
Procurada, a Prefeitura de São Paulo afirmou que oferece aos blocos "toda a infraestrutura para a realização do Carnaval de Rua da cidade, além de apoio financeiro", mas ressaltou que "é de responsabilidade dos organizadores de blocos se viabilizarem economicamente para a festa por meio de patrocínio".
Sobre o Bloco Sargento Pimenta, a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa afirmou que "lamenta a decisão", mas disse que ela "não tem qualquer relação com a política de fomento da Prefeitura", já que os organizadores "sequer se inscreveram para o recebimento dos recursos".
Fundado em 2016, Pagu representa resistência cultural
Fundado em 2016 em São Paulo, o Bloco Pagu se consolida como um coletivo carnavalesco com bateria 100% feminina. A agremiação conta com 130 ritmistas na bateria, aproximadamente 70 pessoas entre seguranças, cordeiros, ajudantes e bombeiros, além de 20 integrantes de banda e mestras de percussão, sem considerar as equipes de produção, comunicação e apoio.
Para viabilizar os desfiles, os blocos recorrem à realização de festas ao longo do ano, apresentações extras e parcerias pontuais. "Existe uma ideia malvista de que o poder público não deveria ajudar mais. Na prática, o bloco paga para sair, e está cada vez mais caro", finaliza Thais Haliski, ecoando o sentimento de urgência que permeia o carnaval paulistano.