Galo da Madrugada recebe coração em homenagem a Dom Helder Câmara em cortejo histórico no Recife
Coração de Dom Helder Câmara é levado ao Galo gigante em cortejo no Recife

Galo gigante ganha coração em homenagem a Dom Helder Câmara em cortejo emocionante no Recife

Pela primeira vez na história do carnaval do Recife, a montagem do icônico Galo gigante, símbolo máximo da folia pernambucana, foi concluída com a participação direta do público em um cortejo histórico. Centenas de foliões e moradores da capital se uniram na noite de terça-feira, 10 de fevereiro, para carregar o coração da alegoria, a peça final que faltava para a estrutura ficar completamente pronta.

Cortejo fraterno reúne comunidade em celebração inédita

O evento inédito aconteceu um dia antes da subida oficial do Galo 2026, programada para quarta-feira, 11 de fevereiro, em uma festa aberta ao público na Ponte Duarte Coelho. O coração, que será exibido externamente no peito da alegoria, representa uma homenagem ao arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara, figura central do tema deste ano: Galo Folião Fraterno.

A peça é uma cocriação dos artistas Leopoldo Nóbrega, responsável pelo design do Galo gigante, e Júlio Gonçalves. Em um momento carregado de simbolismo, o próprio Leopoldo subiu em um guincho para colar o coração enquanto os foliões dançavam na ponte ao som do frevo, acompanhados por um boneco gigante de Dom Helder.

Emoção e significado religioso marcam o evento

Virgínia Pimentel, presidente do Instituto Dom Helder Câmara, expressou a emoção coletiva: Ficamos imensamente emocionados, até com vontade de chorar, porque Dom Hélder representa esse carnaval fraterno, que clama por paz e amor. Ele é um gigante, assim como o Galo da Madrugada.

O cortejo contou com a participação diversificada de:

  • Pessoas em situação de rua
  • Uma orquestra de frevo
  • Os blocos líricos O Bonde e Cordas e Retalhos
  • Passistas da Escola de Frevo do Recife

Carregando o coração sobre um andor, o grupo partiu às ruas por volta das 18h30, após uma missa de Ação de Graças no Convento de Santo Antônio, um dos conjuntos arquitetônicos mais antigos da cidade, construído no século XVII.

Inspiração artística e espiritual por trás da criação

Júlio Gonçalves revelou seu processo criativo: Quando Leopoldo me convidou, fiquei assustado. Com o tamanho do Galo, não sabia como participar. Mas ao saber da homenagem a Dom Helder e que faria a peça principal, comecei a construir um coração que remetesse ao Sagrado Coração de Jesus, simbolizando Dom Helder por seu comportamento santo. Leopoldo depois deu seu toque final.

O padre Fábio Potiguar, capelão da Igreja das Fronteiras onde fica o Memorial Dom Helder, descreveu o coração do líder religioso como cheio de amor. Ele afirmou: Dom Helder espalhou amor por onde passou, especialmente no Recife. Para ser conectado com Deus, é preciso estar conectado com o povo. E o carnaval começa com o Galo da Madrugada.

Trajeto simbólico e participação popular

Após saírem do convento, os foliões seguiram pela Rua do Imperador e Rua 1º de Março em direção à Ponte Duarte Coelho, onde o Galo aguardava. Um trecho do trajeto estava sem energia, fazendo com que os participantes caminhassem no escuro, acrescentando um tom de mistério e devoção ao evento.

O cortejo atraiu diversos admiradores de Dom Helder, que foi arcebispo de Olinda e Recife por 26 anos, entre 1964 e 1985, tornando-se uma voz de resistência durante a ditadura militar. Entre eles, a professora universitária Carine Wiesiolek compartilhou: É imperdível. Todo folião do Galo deveria estar aqui. É de arrepiar. Carnaval para todos, assim como pão e justiça.

Liviane Pimentel, técnica em administração e voluntária no Convento de Santo Antônio, também destacou a experiência: O coração é maravilhoso. Leopoldo sempre dá seu melhor. É muito emocionante participar deste momento junto com a comunidade.

Este cortejo histórico não apenas concluiu a montagem do Galo gigante, mas também reforçou os valores de fraternidade e inclusão que Dom Helder Câmara pregou durante sua vida, integrando espiritualidade e cultura popular em uma celebração única do carnaval recifense.