Clóvis Bornay: A Lenda Extravagante que Moldou o Carnaval Brasileiro
Considerado o rei das fantasias de Carnaval, Clóvis Bornay emergiu como uma figura icônica no cenário cultural brasileiro, marcando época com sua criatividade desmedida e um legado que perdura até os dias atuais. Nascido em 10 de junho de 1916, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, Bornay era o caçula de doze irmãos, filho de mãe espanhola e pai suíço, uma origem diversa que talvez tenha influenciado sua visão artística única.
Os Primeiros Passos de uma Lenda
Ainda na infância, Bornay já demonstrava uma vocação inata para a folia. Aos 12 anos, vestido de cossaco, venceu um concurso de fantasias no Fluminense Futebol Clube, um feito precoce que sinalizava o talento excepcional que viria a desenvolver. Sua paixão pelos bailes de Carnaval o levou a se tornar um dos organizadores do primeiro baile à fantasia do Theatro Municipal, em 1937, inspirado nos tradicionais bailes de máscaras de Veneza.
Nessa ocasião, Bornay venceu a competição com uma criação autoral baseada nos trajes dos príncipes hindus, estabelecendo desde cedo seu estilo opulento e detalhista. Ao longo de seis décadas, ele se consagrou como uma lenda dos concursos de fantasia, chegando a ser declarado hors-concours aos 84 anos, uma expressão francesa que denota qualidades excepcionais acima de qualquer competição.
Uma Carreira Multifacetada e Inovadora
Além de seu papel como carnavalesco, Bornay foi uma figura multifacetada: museólogo, ator, cantor, pesquisador, professor e militante ativo do movimento LGBT. Sua atuação nas escolas de samba foi marcante, com passagens por agremiações como Salgueiro, Unidos de Lucas, Mocidade Independente de Padre Miguel e Unidos da Tijuca. Em 1970, ele conquistou o campeonato pela Portela com o enredo Lendas e Mistérios da Amazônia, consolidando sua reputação como um mestre da narrativa visual.
Bornay era conhecido por compor trajes inspirados em reis, impérios, figuras históricas, seres mitológicos e religiosos, sempre repletos de plumas, pedrarias e bordados detalhados. Suas criações refletiam as tendências da época e eram aguardadas anualmente em eventos de elite, como os realizados no Hotel Glória, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e no Copacabana Palace.
O Legado Atemporal de Bornay
Clóvis Bornay faleceu em 9 de julho de 2005, devido a uma parada cardiorrespiratória. Seu cortejo fúnebre foi acompanhado pela marcha Ó Abre-Alas, de Chiquinha Gonzaga, um tributo adequado a um ícone da folia. Em 2015, a escola Unidos da Tijuca homenageou-o com o enredo Um conto marcado no tempo – o olhar suíço de Clóvis Bornay, reforçando sua importância na história do Carnaval.
Até hoje, Bornay é reverenciado como inspiração em exposições de moda e grandes bailes de fantasia. Recentemente, a 21ª edição do Baile da Vogue teve como tema Carnavália: O Abre Alas Fashionista da Folia!, onde o influenciador Felipe Theodoro chamou atenção com uma fantasia coruscante em homenagem a Bornay. Sua influência moldou a estética dos espetáculos da Sapucaí, contribuindo para a consolidação dos personagens ornamentados que se apresentam no centro dos carros alegóricos.
Com um legado que transcende gerações, Clóvis Bornay permanece como um símbolo de luxo, exuberância e criatividade no Carnaval brasileiro, uma lenda cujo impacto continua a inspirar artistas e foliões em todo o país.