Uma jornada secular: a evolução do Carnaval na capital piauiense
Todos os anos, antes do período da Quaresma, as ruas de Teresina se transformam em palco de uma das manifestações culturais mais vibrantes do Brasil: o Carnaval. Ao longo de mais de um século, a folia tem se reinventado, passando dos exclusivos clubes sociais da elite aos democráticos bloquinhos de rua que hoje dominam a cena. O historiador Bernardo Sá, professor da Universidade Federal do Piauí e pesquisador do samba e da cultura popular, desvenda essa rica trajetória em entrevista exclusiva.
Origens no Centro: cavalheiros e primeiras agremiações
As manifestações carnavalescas em Teresina começaram, assim como a própria capital, no Centro da cidade. Bernardo Sá explica que, na segunda metade do século 19, a folia se concentrava no que hoje é a Praça Saraiva. "Os jornais da época registravam que alguns 'cavalheiros' se reuniam ali, mas não como um bloco ou agremiação organizada. Essa organização só viria a acontecer com o surgimento dos clubes sociais", destaca o pesquisador.
Clubes sociais e os curiosos 'assaltos' carnavalescos
Em 1922, surgiu o Clube dos Diários, que inaugurou sua sede três anos depois, em 1925. Na época, os blocos eram organizados por intelectuais e juristas como Higino Cunha e Jônatas Batista, desfilando pelas ruas do Centro. Bernardo aponta que esses blocos se apresentavam nas casas de moradores da região no que era conhecido como "assalto carnavalesco".
O historiador observa, contudo, que as apresentações e o itinerário eram combinados previamente. "O dono da casa se preparava para receber os foliões com licores, salgadinhos, docinhos e petiscos. A apresentação durava das 15h às 19h e, à noite, retornava para o Clube dos Diários ou o mais popular Clube do Botafogo", relata.
Enquanto a elite festejava nos clubes, o "Sereno" reunia moradores que assistiam das calçadas, com curiosidade, ao luxo e à pompa dos bailes que não podiam frequentar. Entre os principais clubes da época estavam o Clube dos Fanfarrões, Bloco das Turunas, Bloco da Itália e Terpyscore Clube.
Corso e escolas de samba: novas formas de celebração
Além dos "assaltos", o desfile de foliões fantasiados conhecido como Corso movimentava o Carnaval da cidade. Primeiramente com carroças enfeitadas, o evento passou a contar, a partir da década de 1920, com carros que jogavam confetes e jatos de lança-perfume.
O percurso do desfile saía da Praça Rio Branco e passava pelas ruas Coelho Rodrigues, 7 de Setembro e Eliseu Martins até chegar à Praça João Luís Ferreira. Uma atração significativa era o "Caminhão das Raparigas", composto por prostitutas da Rua Paissandu, em raro momento de reconhecimento público.
"Esse Carnaval itinerante do Corso desaparece, na maioria das capitais, na década de 1950, mas em Teresina persiste até os anos 60, quando as escolas de samba se consolidam como atração principal", observa Bernardo.
Os blocos conviveram inicialmente com as escolas de samba, que alcançaram o recorde de 13 concorrentes em 1975. Nesse período, figuras como Bernardo Cruz (o primeiro homem a desfilar em uma escola, fantasiado de baiana) e Nicinha, a "eterna Rainha dos Carnavais", marcaram pela alegria e irreverência.
Blocos de sociedade e de 'sujo': uma nova divisão
Entre os anos 80 e 90, as escolas de samba perderam força devido à interrupção do repasse financeiro feito pela Prefeitura de Teresina. Para substituí-las, entraram em cena dois tipos de blocos.
Segundo Bernardo Sá, havia os blocos de sociedade, com fantasias próprias e luxuosas, diretoria organizada e ensaios periódicos. "Havia também aquele chamado 'de sujo', uma reminiscência do entrudo, que foi o primeiro formato do Carnaval brasileiro. Nele, as fantasias eram improvisadas e se praticava uma brincadeira grotesca, que hoje persiste no 'mela-mela'", descreve o historiador.
O pesquisador cita como exemplos o Dou-lhe Três, Em Cima da Hora, Banda Bandida, Tabaco Roxo, Barão de Itararé, La Boate, Vaca Atolada e o Paçoca — blocos que começaram de "sujo" e se tornaram, eventualmente, de sociedade.
A folia nos dias atuais: pluralidade e resistência
Nas últimas duas décadas, os bloquinhos perduraram entre a memória das antigas escolas de samba e o processo de reavivamento e esvaziamento do Corso, que chega ao segundo ano consecutivo, em 2026, sem ser realizado.
Os foliões mantiveram a festa viva com o Capote da Madrugada, o Pinto na Morada e o Piauí Samba de um lado; o Sanatório Geral, as Fuleiras, as Curicas e o Stouradas de outro. A sátira política e a celebração da diversidade são marcas dos dois grupos.
"O Carnaval é plural e consequente de diversas manifestações e festas culturais que se fundiram ao longo do tempo. Isso agrada tanto ao folião que brinca e vai ao bloco quanto ao carnavalesco que gosta de ver e assistir", conclui Bernardo, destacando a rica tapeçaria cultural que compõe o Carnaval teresinense.
