Blocos históricos reúnem multidões e celebram tradição no Carnaval carioca
Tradição e emoção marcaram o sábado, 14 de fevereiro, no Carnaval do Rio de Janeiro, com desfiles de blocos históricos que voltaram às ruas reafirmando sua força no calendário carnavalesco. Cordão da Bola Preta, Amigos da Onça, Escangalha, Céu na Terra e Terreirada reuniram gerações de foliões em celebrações que atravessam o tempo, destacando a diversidade e a memória cultural da festa.
Cordão da Bola Preta arrasta 500 mil pessoas com tema DNA
Com mais de um século de história, o Cordão da Bola Preta desfilou com o tema DNA, arrastando um público estimado em 500 mil pessoas. O repertório incluiu marchinhas históricas como “Cidade Maravilhosa”, “Mamãe Eu Quero”, “Me Dá um Dinheiro Aí” e “A Jardineira”, além de sambas e canções populares que dialogam com diferentes épocas da música brasileira. A banda, composta por músicos profissionais e veteranos, manteve o formato de orquestra de sopros, característica dos carnavais tradicionais.
Leandra Leal, Paolla Oliveira, Emanuelle Araújo, Tia Surica da Portela e Selminha Sorriso lideraram o cortejo, reforçando a realeza do bloco. Paolla Oliveira, rainha do Bola Preta, destacou a relevância cultural e social da festa: “O Carnaval é muito mais que só uma festa, ele fala sobre quebrar preconceitos e abrir espaço para a diversidade. O Bola está há mais de 100 anos trazendo tradição e cultura para o Carnaval do Rio.” Leandra Leal comentou o tema DNA, afirmando que o bloco faz parte de sua identidade cultural, com um novo trajeto que homenageia Preta Gil, simbolizando celebração, alegria e amor.
Amigos da Onça une folia e preservação ambiental
No Aterro do Flamengo, o bloco Amigos da Onça realizou seu 14º desfile, unindo irreverência a um forte discurso sobre preservação ambiental. Com fantasias inspiradas na fauna e flora brasileiras, como onças, jacarés e capivaras, o cortejo contou com pernaltas, bailarinos e ritmistas. O repertório incluiu sucessos de Baiana System, Nação Zumbi, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Michael Jackson, com a paisagem do Pão de Açúcar ao fundo tornando o momento ainda mais especial.
Uma multidão de foliões cantou e dançou nas areias da praia do Flamengo, acompanhando as performances como se tivessem sido ensaiadas. O bloco reforçou a mensagem de que a folia pode ser um espaço para conscientização e cuidado com o meio ambiente, mostrando que a alegria e a responsabilidade podem caminhar juntas.
Escangalha resgata sambas-enredo para as ruas
Fundado em 2007, o Bloco Escangalha surgiu da percepção de que o samba-enredo, nascido nas ruas, havia se afastado delas ao longo do tempo. Sem tema anual, o bloco construiu sua identidade com pesquisa e curadoria musical, devolvendo à cidade um repertório que marcou gerações do Carnaval carioca. Pedro de Alencar, um dos fundadores, explicou: “O samba-enredo começou na rua, depois foi para a avenida, e ao longo do tempo a rua foi perdendo contato com ele.”
O Escangalha investe em respeitar as tradições de cada escola de samba, incluindo particularidades rítmicas das baterias. Comandada pelo Mestre Waguinho, a bateria tem maioria feminina e funciona como espaço de aprendizado e transmissão cultural. O bloco se firmou no Jardim Botânico, na Zona Sul, para preencher um vazio e reverberar uma cultura que está prestes a completar 100 anos. “A gente sabe que não ter um tema pode parecer fora de moda, mas acredita que o clássico não morre”, concluiu Pedro.
Histórias emocionantes e diversidade ritmística
O Carnaval também foi palco de histórias pessoais profundas. Nadja Neri e Denilson Cardoso, que perderam uma filha, encontraram na folia um espaço de reconstrução. “Buscar felicidade e não ter vergonha de ser feliz”, disse Nadja, emocionada. Após anos de pausa, o casal retornou aos blocos como uma escolha consciente pela vida, transformando a alegria em um gesto de memória e presença.
Na Quinta da Boa Vista, o bloco Terreirada misturou ritmos do Norte e Nordeste, como maxixe, baião, xaxado e forró, com arranjos específicos e mais de 100 pernaltas. Raquel Poti, fundadora, destacou: “É uma força de expressão dos nossos mestres, exaltando rituais e cerimônias em uma junção de muitas linguagens.”
Outros blocos, como Céu na Terra em Santa Teresa, Bloco dos Barbas em Botafogo, Bloco Brasil no Leme, Bloco Exagerado no Centro, Multibloco e Banda de Ipanema, também animaram a cidade, mostrando a riqueza e a vitalidade do Carnaval de Rua carioca.
