Livro revela como carnaval de rua em São Paulo se torna palco de ativismo e resistência LGBTQIA+
O sociólogo Vinicius Ribeiro Alvarez Teixeira apresenta uma visão profunda sobre as manifestações culturais e políticas durante o carnaval paulistano em seu novo livro Arco-íris brilha com glitter: livro investiga ativismos LGBTQIA+ no carnaval de rua de São Paulo. A obra, que será lançada neste sábado (31) na Ocupação Fervo, na Água Branca, Zona Oeste da capital, promete desvendar as camadas de significado por trás da folia.
Mais que festa: um espaço de luta e pertencimento
Parece só uma festa, mas o fervo também é luta. Essa frase do autor sintetiza a essência da pesquisa, originada de seu doutorado na Universidade de São Paulo. Teixeira explica que o objetivo central é demonstrar como coletivos e indivíduos LGBTQIA+ ocupam as ruas, constroem visibilidade e enfrentam preconceitos através da música, da celebração e da diversidade corporal.
Para o sociólogo, participar de um bloco LGBTQIA+ vai além da diversão. Significa pertencer e dar visibilidade à diversidade de gênero e sexual, além de resistir à homofobia, à transfobia e ao machismo, afirma. Ele descreve o carnaval como a festa feminina popular de raízes africanas, homossexual, transgênera e queer de uma sociedade estruturalmente machista, patriarcal, erotista, racista e homotransfóbica.
Crescimento dos blocos e contexto político
Teixeira conecta o aumento dos blocos de rua em São Paulo ao cenário político brasileiro, especialmente a partir das Jornadas de Junho em 2013. Segundo ele, esse período foi marcado por uma intensa efervescência social e pelo surgimento de novas formas de organização coletiva, menos hierárquicas e mais horizontais.
A ideia de coletivo estava muito em voga. Eram organizações mais transversais, que rompiam um pouco com a lógica hierárquica de partidos políticos e movimentos sociais tradicionais. O bloco de carnaval vira uma dessas maneiras de organização, destaca o pesquisador. Essa presença nas ruas não é apenas festiva, mas carrega um profundo sentido de pertencimento, afirmando o direito de existir na cidade, similar ao que ocorre na Parada do Orgulho LGBT+.
Expressão de identidade e descobertas pessoais
O carnaval de rua se configura como um momento privilegiado de expressão para a comunidade LGBTQIA+. Eu acho que ninguém fica fora do arco-íris na rua. O carnaval é um momento privilegiado de expressão de todas as letras, de toda a diversidade de identidade de gênero e orientação sexual, comenta Teixeira.
A festa abre brechas para experimentar formas de ser que muitas vezes não encontram espaço no cotidiano. Um exemplo citado na pesquisa é o de uma pessoa que começou a entender sua identidade não binária justamente durante o carnaval, ao explorar roupas e expressões de gênero. A possibilidade de se expressar de outras maneiras, que o cotidiano não nos permite, faz com que a gente explore um pouco das nossas identidades, explica o autor.
Violências estruturais e vivência pessoal
Apesar do ambiente de celebração e maior visibilidade, Teixeira ressalta que a festa não elimina as violências estruturais. Ele observa que pessoas LGBTQIA+, especialmente mulheres trans, permanecem mais vulneráveis, inclusive durante o carnaval.
A pesquisa também é atravessada pela vivência pessoal do autor. Vinicius Teixeira vem de uma família com tradição carnavalesca – seus pais se conheceram em uma terça-feira de folia no Rio de Janeiro – mas ele mesmo fugia do carnaval de São Paulo até 2018, quando começou a frequentar blocos na capital.
Como homem gay cis, ele relata que o carnaval foi, por muito tempo, um dos poucos momentos em que se sentia mais seguro para demonstrar afeto em público. Eu me sentia mais seguro beijando outros homens na rua durante o carnaval do que em outros momentos do ano, compartilha. Essa experiência pessoal informa seu olhar acadêmico, revelando a festa como um espaço onde visibilidade, pertencimento e existência se tornam atos políticos.
Lançamento em formato de celebração
O lançamento do livro ocorrerá neste sábado (31), a partir das 16h, na Ocupação Fervo, localizada na Rua Carijós, 248, no bairro da Água Branca, Zona Oeste de São Paulo. O evento terá formato de festa, com apresentação do Bloco Abacaxi de Irará, além de bate-papo com o autor e sessão de autógrafos.
A obra convida os leitores a repensarem o carnaval não apenas como uma festa popular, mas como um fenômeno social complexo onde alegria e resistência se entrelaçam, criando um mosaico de expressões que desafiam normas e celebram a diversidade humana.