Aos 34 anos, Thais Carla acumula conquistas que muitos consideravam improváveis. Bailarina, influenciadora, ativista e agora atriz em formação, ela construiu uma carreira desafiando expectativas sobre mulheres gordas no Brasil. Dos palcos de dança do subúrbio carioca aos programas de televisão de maior audiência, passando pelo corpo de dança de Anitta, sua trajetória é marcada por uma teimosia produtiva: quando dizem que não vai conseguir, ela faz questão de provar o contrário.
Em entrevista à coluna GENTE, Thais revela um momento diferente. Há um ano, ela realizou a cirurgia bariátrica, perdeu 100 quilos e está prestes a cruzar a marca dos dois dígitos na balança. No entanto, ela é cuidadosa com o que esse número representa. “Não estou querendo que as pessoas odeiem o corpo gordo porque agora emagreci. Pelo contrário, quero mostrar como é essa trajetória, sabendo que tem todo um processo que não é de um dia para a noite”, reflete.
É justamente contra simplificações que ela direciona seu discurso. Para Thais, o estigma de que pessoas gordas são automaticamente negligentes com a própria saúde é o núcleo da gordofobia estrutural, que não está restrita ao xingamento na rua ou ao comentário maldoso nas redes sociais: é a cadeira que não comporta, o avião que constrange e até a diversão que exclui. “Quando fui para a Disney com minhas filhas, queria brincar em todos os brinquedos. As crianças falavam ‘mãe, eu queria tanto brincar, não consigo brincar com a senhora’. Senti na pele o que é a gordofobia estrutural ali, muito duro”, relembra.
Nas redes sociais, ela sempre defendeu a ideia de que não era preciso esperar emagrecer para viver. A mensagem, porém, nem sempre chegou intacta. “As pessoas foram distorcendo tudo que eu falava — que eu sou a favor de todo mundo ser gordo. Eu nunca disse ‘seja gordo e é isso.’ Na minha fala não existe isso. Eu quero que provem que eu disse isso. A gente sabe que vivemos num Brasil muito ignorante. As pessoas não entendem realmente o que a gente está falando”, afirma.
Foi nesse ambiente que surgiram as disputas judiciais. Thais venceu duas ações por gordofobia em primeira instância, incluindo o processo contra o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), condenado a indenizá-la por danos morais. As decisões são vistas por ela como marcos em um país que ainda não tem legislação específica sobre o tema. “Quem sabe no futuro isso vira uma lei para as pessoas pararem de ser humilhadas, porque é uma doença. Não é concordar, é respeitar. Respeitar o processo, porque cada pessoa tem um problema dentro dessa obesidade que fez acarretar isso. É tão profundo que só alguém muito estudado para explicar a complexidade dessa doença”, destaca a influenciadora, evidenciando atual luta fora da balança.
Seguir judicializando ataques, no entanto, deixou de ser prioridade. “Só se for algo muito grave. Estou cansada disso, cansada de usar essa imagem. Tenho coisas melhores a agregar”. Não se trata de recuo, mas de escolha. Como ela mesma resume, com uma dose de pragmatismo e fé: “Enquanto há vida, há esperança”.



