Projeto artístico revela rostos dos manipuladores dos bonecos gigantes de Olinda
Rostos dos manipuladores de bonecos gigantes de Olinda são revelados

Projeto artístico revela rostos dos manipuladores dos bonecos gigantes de Olinda

Rostos suados, olhares que misturam orgulho e cansaço, corpos que sustentam tradições. Escondidos atrás dos tecidos coloridos que vestem os tradicionais bonecos gigantes de Olinda, mais de uma centena de homens foram fotografados no projeto "Manipuladores de Gigantes", do multiartista André Nomes. A iniciativa, além de trazer protagonismo para os carregadores, busca criar um registro histórico e documental de quem carrega no próprio corpo o maior símbolo cultural do carnaval da cidade.

Observação respeitosa e aproximação gradual

Nascido e criado na Linha do Tiro, bairro da Zona Norte do Recife, André é pichador, muralista e escritor urbano conhecido pelo pseudônimo "Nomes". Em 2024, o artista começou a se aproximar dos manipuladores para conhecê-los, mas somente em 2025 os primeiros registros foram feitos. Agora, em 2026, a proposta começou a ganhar forma concreta.

"Eu comecei a observar de longe. Nunca gostei de chegar 'com os dois pés', sabe? No ano passado foi que conheci alguns manipuladores. Já conhecia alguns pelo lado artístico, porque alguns, além de manipular, são artesãos, fazem bonecos, alguns têm bloco também. Fui fazendo esse estudo mesmo sem fazer fotografia, pegando autorização, fazendo amizade... fui chegando meio que nesse estudo mais presente", afirmou André Nomes em entrevista.

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Catálogo histórico e memória para futuras gerações

Segundo o artista, além da produção artística, a ideia é criar uma espécie de catálogo e registro histórico dos manipuladores, já que muitos são moradores de comunidades e bairros periféricos de Olinda. Mesmo brilhando por décadas nas ladeiras da cidade, grande parte desses personagens que sustentam os bonecos nas costas não são conhecidos pelo grande público.

"Foi também uma forma de catalogar, porque é muita história. Alguns morrem, outros são envolvidos com outras coisas e acabam sumindo, assumindo outros papéis, outras profissões e deixando [de carregar bonecos]. Eu queria, de fato, catalogar mesmo, criar memória para as próximas gerações", comentou Nomes.

Paixão pelo Menino da Tarde e histórias de vida

André é apaixonado pelo bloco e boneco "Menino da Tarde", criado em 1974 por Silvio Botelho, para representar o filho do "Homem da Meia-Noite" com a "Mulher do Dia". Foi a partir dessa agremiação que o artista começou seu estudo aprofundado.

Alguns dos registros foram realizados também em vídeo, com entrevistas a manipuladores como Carlos Alberto Fernandes, conhecido como Carlos da Burra. Com mais de 60 anos, ele é o carregador oficial do "Homem da Meia-Noite" e já levou diversos outros bonecos consagrados, como o "John Travolta" e o "Garoto de Vassoura".

"Para mim, é uma vitória que Deus me dá e tenho só a agradecer a Ele e a todos os foliões de Olinda. Em todos os bonecos eu fico ansioso. Hoje, eu vou ser o 'Garoto de Vassoura'... amanhã, eu vou ser o 'Homem da Meia-Noite'... outra noite, eu vou ser 'O Cara'... todos os bonecos, meus, tem o meu personagem. Eu me incorporo nos meus bonecos", comentou Carlos da Burra em vídeo registrado por André Nomes.

Registro meticuloso e trabalho em construção

Os registros de André são marcados pelo contato pessoal e pela valorização da oralidade. Dos mais de 100 manipuladores fotografados, cerca de 30 já tiveram os nomes propriamente registrados. Destes, alguns ainda contam apenas com os apelidos anotados durante a agitação do frevo - retalhos de um trabalho ainda em construção.

"Já são mais de 100 [manipuladores fotografados]. Eu já conheço entre uns 20 e 30, de trocar uma ideia e tal, mas são mais de 100. Eu não cataloguei todos. [...] Eu não tenho acesso, ainda, a todos os nomes. Eu não quero tipo assim: 'Ah, já me dá o nome de todo mundo lá, já me dá não sei o quê'. Minha ideia só é dar protagonismo a isso", explicou o artista.

Futuro do projeto e relatos poéticos

Para o futuro, ficam os planos ambiciosos de um livro com as fotografias e a exposição das pinturas que ainda serão produzidas com base nas imagens. Até lá, o meio digital continua como moldura de uma proposta que já tem forma e propósito bem definidos.

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Em um dos relatos poéticos sobre seu trabalho, André Nomes descreve:

"Cada boneco pede algo diferente. Alguns exigem preparo. Alguns pedem acordo. Alguns são levados com devoção. Vi manipuladores que carregam vários gigantes. Vi outros que se dedicam a um só. Vi cumprimentos às orquestras, aos moradores, às crianças, aos mais antigos, aos passistas. Vi bonecos se cumprimentando nas esquinas. Vi o esforço nas colunas. Vi o revezamento silencioso. Vi o cuidado coletivo para que o gigante dance com segurança e elegância. Vi cansaço. Vi alegria. Vi responsabilidade".

O projeto continua em andamento, documentando não apenas rostos, mas histórias de vida que sustentam uma das tradições culturais mais importantes do Nordeste brasileiro.