
O coração de Porto Alegre bate mais pesado nesta quinta-feira. O Memorial do Cerrado, normalmente um espaço de tranquilidade, transformou-se em palco de uma despedida emocionante — e, de certa forma, celebradora — daquele que foi um dos maiores cronistas do Brasil. Luis Fernando Verissimo, aos 88 anos, partiu, mas sua presença ainda pairava pesada no ar, misturada com a saudade que já começava a se instalar.
Quem chegava ao local via imediatamente: não era um ambiente de luto mórbido. Havia um silêncio respeitoso, é claro, mas cortado por sussurros de pessoas compartilhando histórias, lembranças de suas crônicas favoritas, daquele texto que fez rir em um dia difícil. Um senhor, com os olhos marejados, contava para a esposa como uma coluna de Verissimo o ajudou a ver o lado mais leve da política nacional nos anos 90. Era isso, no fundo: uma reunião de gratidão.
Familiares chegaram cedo. Filhos e netos do escritor recebiam o carinho de amigos próximos e figuras públicas com uma dignidade comovente. A política e a cultura gaúcha marcaram presença de forma massiva — um testemunho silencioso do calado que sua voz tinha não apenas no humor, mas no pensamento crítico do país. A prefeitura de Porto Alegre, num gesto que soou genuíno, decretou luto oficial. Algo raro, reservado para aqueles que realmente moldam o espírito de uma cidade.
E que legado! Meu Deus. Não era só sobre fazer rir. Era sobre fazer pensar disfarçado de riso. Verissimo possuía aquela rara habilidade de espetar a hipocrisia social com uma prosa afiada que parecia sempre conversar com você, não gritar de cima de um púlpito. Ele falava de futebol, política, costumes familiares e o absurdo do quotidiano com a mesma maestria. Perdemos um tradutor do Brasil para os próprios brasileiros.
Um adeus condizente com sua obra
Nada de pompas excessivas ou cerimônias intermináveis. O velório, assim como sua escrita, foi direto, sincero e repleto de significado humano. O corpo do autor foi cremado em uma cerimônia restrita à família, um momento íntimo de despedida final após o adeus público. A escolha pareceu justa para um homem que sempre valorizou a essência sobre a aparência.
É difícil medir o tamanho de uma ausência como essa. Luis Fernando Verissimo não era apenas um nome nas capas de livros nas livrarias. Era um hábito semanal para milhões de leitores, uma voz constante que ajudou a formar o senso de humor e de crítica de gerações. Porto Alegre, hoje, chora um de seus filhos mais ilustres. O Brasil, perde um dos seus observadores mais sagazes e amados. Mas as histórias, essas, felizmente, ficam. E que consolo.