
E o Brasil ficou um pouco mais silencioso, mais sem graça. Na tarde desta quinta-feira, partiu Luis Fernando Verissimo, um daqueles raros gigantes que conseguiam fazer a gente rir e pensar ao mesmo tempo — e, convenhamos, fazer isso com a elegância que ele fazia não era para qualquer um. Tinha 88 anos, uma vida longa, sim, mas que ainda assim parece ter terminado cedo demais.
O coração — aquele que tantas vezes se emocionou com as palavras dele — simplesmente parou, em sua casa, em Porto Alegre. A causa? Uma falência múltipla de órgãos. A família, é claro, está arrasada. Quem não ficaria?
Mais do que um escritor: um hábito nacional
Verissimo não era apenas um autor; era um costume. Era a coluna no jornal de domingo que a gente procurava primeiro, a piada inteligente que se repetia na segunda-feira no trabalho, a observação certeira sobre a nossa própria vida. Ele via o absurdo no cotidiano e devolvia para a gente com um humor que doía, mas sem machucar.
E olha que ele nem começou a carreira pensando nisso. Já era um músico de jazz respeitadíssimo — sim, esse era outro dos seus talentos — quando resolveu se aventurar pelas palavras. Que sorte a nossa.
Um legado de livros, personagens e frases inesquecíveis
Quem nunca leu O Analista de Bagé e riu até se incomodar? Ou se identificou com as perplexidades da vida nas crônicas de O Mundo é Bárbaro? Sua obra era vasta, diversa e profundamente humana. Romances, crônicas, livros infantis — o homem simplesmente não parava de criar.
- O Popular: Sua coluna no jornal O Globo era aguardada como quem espera a visita de um amigo inteligente e engraçado.
- O Atemporal: Personagens como a Velhinha de Taubaté entraram para o imaginário do país, virando quase arquétipos da nossa própria identidade.
- O Essencial: Ele falava de política, de costumes, de futebol, de tudo. Sempre com aquele olhar que parecia dizer: "A gente está junto nessa loucura".
E pensar que ele quase seguiu outro caminho. Filho do também gigante Érico Verissimo, a sombra era grande. Mas Luis Fernando não apenas saiu de debaixo dela; construiu sua própria floresta.
O silêncio que fala mais alto
Agora, a máquina de escrever — porque imagino que um homem da classe dele ainda gostasse do tactear das teclas — se calou. Mas o barulho que suas ideias continuam a fazer é ensurdecedor.
Num país que tantas vezes leva a cultura como algo secundário, a perda de uma voz como a dele é um lembrete doloroso do que realmente importa. Ele era, no fim das contas, um contador de histórias. E as melhores histórias, como bem sabemos, nunca terminam de verdade.
Descanse em paz, mestre. E obrigado por todas as risadas.