Luis Fernando Verissimo se vai: Brasil perde um de seus maiores cronistas e humoristas
Morre o escritor e humorista Luis Fernando Verissimo

O Brasil acordou mais silencioso hoje. Mais pobre. Luis Fernando Verissimo partiu, e com ele se foi uma das vozes mais sagazes, afiadas e genuinamente engraçadas que este país já produziu. Tinha 88 anos. A notícia, confirmada pela família, chegou como um soco no estômago para fãs e admiradores — que somos tantos.

Não foi apenas um escritor que perdemos. Foi um cronista do absurdo do nosso cotidiano, um humorista que conseguia extrair comicidade das situações mais cinzentas, um observador social com a rara capacidade de rir de nós mesmos. E como riamos.

Mais do que palavras, um legado de identidade

Verissimo — ou apenas "Verissimo", como era conhecido — era filho do também gigante Érico Verissimo. Mas criou uma sombra própria, vasta e única. Seus textos, publicados por décadas em jornais de todo o país, eram antenas sintonizadas na alma brasileira. Com uma ironia fina e uma prosa aparentemente simples, ele dissecava políticos, costumes, burocraias e as pequenas tragédias domésticas com igual maestria.

Quem nunca leu uma crônica dele e pensou "é exatamente isso"? Ele tinha esse dom. De pegar um sentimento difuso, uma frustração coletiva, e transformá-la em um texto preciso e, pasmem, hilário. Num país que tantas vezes precisou rir para não chorar, Verissimo foi uma espécie de tesouro nacional.

O mestre das múltiplas linguagens

Além das crônicas que o consagraram, o autor gaúcho — natural de Porto Alegre — era também dramaturgo, cartunista, tradutor e músico. Um verdadeiro artista multifacetado. Sua coluna no jornal O Globo era parada obrigatória para milhões de brasileiros, um hábito semanal que misturava insight e entretenimento como poucos conseguiam.

E os livros? Mais de 80 títulos, gente. Coisa de gente louca — ou de gênio. Coleções de crônicas que viraram best-sellers e formaram gerações de leitores. "O Analista de Bagé", "Comédias da Vida Privada", "O Mundo é Bárbaro". Títulos que já são parte do nosso imaginário.

O que dizer de um homem que conseguiu fazer todo um país refletir — e gargalhar — com suas palavras? Que fez da língua portuguesa um playground de ideias? Que nunca precisou do humor fácil, porque o inteligente era sua marca registrada?

Ele deixa uma lacuna. Daquelas que doem. Mas deixa também um arsenal de textos, piadas, observações e pensamentos que continuarão vivíssimos. É esse o paradoxo dos grandes artistas: partem, mas a obra fica, ecoando no tempo.

O Brasil perdeu hoje uma das suas consciências mais humoradas. E, cá entre nós, é difícil imaginar quem poderia ocupar esse lugar.