
E não é que o dono daquelas crônicas que pareciam conversar baixinho no nosso ouvido resolveu fazer silêncio de vez? Luis Fernando Verissimo — ah, o Verissimo! — partiu nesta segunda-feira, 4 de agosto, deixando um vazio que nenhuma palavra vai preencher direito.
Porto Alegre acordou mais quieta hoje. Aos 88 anos, o escritor que morava no bairro Três Figueiras decidiu que já tinha dito tudo que precisava — e olha que disse tanto, mas tanto, sempre com aquela economia genial de quem sabe que menos às vezes é infinitamente mais.
O legado de um mestre do understatement
Poucos conseguiram fazer tanto com tão poucas palavras quanto Verissimo. Suas crônicas — aquelas pequenas joias de observação do cotidiano — eram como conversas de boteco com o amigo mais sagaz que você poderia ter. Sem alarde, sem pirotecnia, apenas a verdade disfarçada de casualidade.
Filho do também gigante Érico Verissimo, Luis Fernando carregou o peso do sobrenome com uma leveza que só os verdadeiramente talentosos conseguem. E caramba, como ele carregou bem! Transformou a herança literária em algo totalmente seu, singular, inconfundível.
Mais que humor, humanidade
Dizer que Verissimo era humorista é como dizer que o mar é molhado — tecnicamente verdadeiro, mas completamente insuficiente. Sua escrita era filosofia de esquina, sociologia do everyday life, poesia disfarçada de prosa solta.
Quem nunca leu uma crônica dele e pensou "como é que esse sujeito consegue descrever exatamente o que eu estava sentindo"? Era essa a magia: Verissimo nos lia melhor que nós mesmos.
E os livros? Mais de 70 obras publicadas — um número que parece piada de mau gosto quando a gente para pra pensar na qualidade de cada uma. Das tiras do Radicci às crônicas nos jornais, tudo saía com aquela marca registrada: inteligência afiada embalada em gentileza.
O adeus discreto de um gigante
O velório aconteceu no cemitério Jardim da Paz, em Porto Alegre — porque ironia também era com ele mesmo. E que fria, hein? Agosto mal começou e já levou um dos nossos maiores.
Restam as palavras. Milhares delas, espalhadas por livros, jornais, memórias afetivas de um país que riu — e pensou — com ele. Verissimo partiu, mas deixou aquele silêncio que fala mais alto que muitos discursos.
Até logo, mestre. E obrigado por todas as risadas sábias.