Arquivo do Rio desvenda imagem única da casa de Tia Ciata, ícone do samba
Uma descoberta histórica no Arquivo-Geral do Rio trouxe à tona a única fotografia conhecida da casa de Hilária Batista de Almeida, mais conhecida como Tia Ciata. A imagem, que mostra o imóvel localizado no número 117 da Rua Visconde de Itaúna, foi encontrada em um acervo de 14 mil fotos da gestão do prefeito Henrique Dodsworth, entre 1937 e 1945. A informação, inicialmente divulgada pela Folha de S. Paulo e confirmada pelo g1, revela um tesouro visual que ilumina a história da Pequena África, região central na sociabilidade negra urbana do fim do século 19 e início do 20.
Papel central na consolidação do samba
Historiadores concordam que a casa de Tia Ciata foi um epicentro cultural, frequentada por bambas lendários como João da Baiana, Pixinguinha, Hilário Jovino e Sinhô. Esse espaço teve um papel fundamental na consolidação do samba como gênero musical e em sua relação íntima com o carnaval carioca. A descoberta da foto permite uma conexão tangível com esse passado vibrante, que moldou a identidade musical brasileira.
Demolição e transformação urbana
O imóvel foi demolido durante as obras que deram lugar à Avenida Presidente Vargas, inaugurada em 1944, um projeto que apagou o bairro residencial da Praça Onze. Na foto encontrada, uma anotação manuscrita indica o número da casa, marcando-a para demolição. Tia Ciata, que faleceu em 1924, não testemunhou a destruição de seu lar, mas sua memória permanece viva através de registros como este.
As imagens foram capturadas por Uriel Malta e Aristógiton Malta, filhos de Augusto Malta, fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio por mais de três décadas. Segundo Pedro Paiva Marreca, gerente de Pesquisa do arquivo, a abertura da Avenida Presidente Vargas devastou uma região cosmopolita, habitada por imigrantes, ex-escravizados, comunidades judaicas e gregas, apagando ruas cruciais para a história da cidade.
Reconstrução histórica e georreferenciamento
O pesquisador Rafael Martins de Araújo detalha o processo de localização da casa: "A gente foi conseguindo reconstruir a rua inteira e cruzar dados com documentações como plantas que mostram os lotes. Conseguimos georreferenciar onde ficava cada casa, até chegar ao número 117 da Rua Visconde de Itaúna." Ele acrescenta que a descoberta inclui tanto o positivo quanto o negativo da imagem, contextualizando-a nas grandes reformas urbanas da época.
Livro com imagens raras e memória coletiva
A foto integra um conjunto mais amplo que inclui imagens derradeiras da Praça Onze durante as obras, reunidas no livro 'Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)', lançado recentemente. Elizeu Santiago, presidente do Arquivo, espera que a divulgação dessas imagens incentive novas descobertas: "Quantos pesquisadores ou curiosos não vão identificar a casa de um antepassado? Este livro dialoga com a memória das famílias que habitaram a cidade." O volume também mostra transformações urbanas como a expansão dos subúrbios e a inauguração do Jardim de Alah.
Legado musical e resistência cultural
A casa de Tia Ciata foi palco de reuniões que resultaram em composições históricas, incluindo "Pelo telefone", registrada em 1916 e considerada por muitos o primeiro samba, fruto de uma criação coletiva. Hoje, descendentes de Ciata mantêm um centro cultural dedicado à memória do samba e à ancestralidade.
Mesmo após sua morte, o território da Praça Onze continuou ligado ao samba, sediando os primeiros desfiles competitivos de escolas de samba em 1932. Quando a demolição ameaçou a região, escolas como Mangueira e Portela protestaram por escrito, documentos preservados no Arquivo-Geral do Rio, junto com cartas de figuras como Vinícius de Moraes e Cândido Portinari, que pediam a preservação de patrimônios como a Igreja de São Pedro dos Clérigos.
Esta descoberta resgata não apenas uma imagem, mas a história viva de um espaço que foi crucial para a cultura brasileira, reforçando a importância da preservação da memória urbana em meio às transformações da cidade.
