Caru Brandi inaugura exposição sobre dissidência de gênero no Catete
Exposição de Caru Brandi aborda dissidência de gênero no Catete

Exposição de Caru Brandi no Catete aborda dissidência de gênero com obras visuais

O artista transmasculino não-binárie Caru Brandi inaugurou nesta quinta-feira (5) a exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), localizado no bairro do Catete, Rio de Janeiro. Com entrada gratuita, a mostra representa um marco histórico como a primeira individual de um artista transmasculino não-binárie no Programa Sala do Artista Popular (SAP), que completa 43 anos de existência.

Obras que desafiam dicotomias estabelecidas

Caru Brandi, natural de Porto Alegre, apresenta uma coleção de pinturas e cerâmicas figurativas que retratam, de forma lúdica e crítica, a dissidência de gênero. As obras, que estão todas disponíveis para venda, apresentam seres híbridos e oníricos com poses, posturas e expressões curiosas, realçadas por cores intensas que capturam a atenção do público.

"Ao retratar esses seres que desafiam dicotomias estabelecidas, do que é humano, do que é a natureza, o que é homem, o que é mulher, a exposição abraça dicotomias, no caso da arte", analisa Patrick Monteiro do Nascimento Silva, antropólogo responsável pela pesquisa e texto do catálogo da exposição.

Contexto histórico e institucional

A mostra ocorre em um momento significativo para as políticas culturais brasileiras. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) instituiu recentemente o Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+ através da Portaria nº 260 de 27 de junho de 2025, com o objetivo de:

  • Fomentar parcerias com entidades governamentais e não-governamentais
  • Potencializar políticas públicas de preservação da memória LGBTQIAPN+
  • Formular proposta para criação de Comitê Permanente do Patrimônio LGBTQIAPN+
  • Garantir o direito à memória e salvaguarda do patrimônio cultural deste segmento

Trajetória pessoal e artística de Caru Brandi

Nascido em 07 de janeiro de 1995 em Porto Alegre e criado na zona rural de Viamão, Caru Brandi descobriu sua expressão artística inicialmente através da tatuagem em 2018. Em 2020, começou a pintar e, em 2022, expandiu sua produção para cerâmicas e esculturas. Formado em Direito pela UFRGS, o artista nunca exerceu a profissão, dedicando-se integralmente à arte-educação e produção visual.

Um momento crucial em sua trajetória ocorreu durante a pandemia de coronavírus, quando iniciou a terapia hormonal com testosterona. "É um momento que eu começo a me hormonizar (...), a aplicar testosterona no meu corpo. E diferente de algumas narrativas que eu tinha, de algumas transmasculinidades (...). No lugar de uma representação desses corpos, [há] essa busca por uma identidade para mim também", relata o artista no catálogo da exposição.

Processo criativo e influências

A série Transviades, criada em 2020, gira em torno de aspectos da transição de gênero e apresenta formas com proporções que não seguem compromissos realistas das partes do corpo. Segundo o pesquisador Patrick Silva, essa abordagem representa uma crítica social aos olhares dirigidos ao corpo dissidente.

Caru Brandi explica sua perspectiva: "O que a pessoa olha para quando ela tá olhando para você? Ela quer saber quem você é, se você é um homem, se você é mulher, ela olha para o seu corpo. (...) Pensar em desafiar isso".

Entre suas inspirações, o artista cita Ailton Krenak, autor e ativista indígena, para refletir sobre o conceito de "humano" e a invenção colonial desta categoria, além da obra de Rosana Paulino. Sua viagem a Belém do Pará, terra natal de sua mãe, também influenciou sua busca por ancestralidade e conexão com raízes indígenas e negras.

Informações práticas

A exposição Fabulações transviadas de Caru Brandi permanece aberta ao público até 22 de abril no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, localizado na Rua do Catete, 179, no bairro do Catete, Rio de Janeiro. O horário de funcionamento é:

  1. Terça a sexta-feira: das 10h às 18h
  2. Sábados, domingos e feriados: das 11h às 17h

A realização é da Associação Cultural de Amigos do Museu do Folclore Edison Carneiro (Acamufec) em parceria com o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan).