Es Devlin: A artista que cria palcos monumentais para Beyoncé, U2 e Lady Gaga
Es Devlin: criadora de palcos para Beyoncé, U2 e Lady Gaga

Es Devlin: A mente por trás dos palcos monumentais da música mundial

A artista britânica Es Devlin possui uma carreira que desafia definições simples. Especializada em criar esculturas gigantescas, estruturas luminosas e instalações tecnológicas, seu trabalho transita entre museus renomados e os maiores estádios do planeta. Com um processo criativo que mescla imaginação desenfreada e execução técnica precisa, Devlin tornou-se a arquiteta visual de algumas das turnês mais icônicas da música contemporânea.

Das arenas aos museus: a versatilidade de uma visionária

Foi Es Devlin quem concebeu os impressionantes telões cúbicos da "Formation Tour" de Beyoncé e o palco monumental da "Renaissance Tour". Também criou o cenário tecnológico da turnê "Innocence + Experience" do U2 e produziu a estrutura para o histórico show de Lady Gaga em Copacabana, considerado um dos maiores espetáculos musicais de todos os tempos. "Alguém transformou um momento de vida em música, as pessoas se conectaram e compraram ingressos para vivenciar isso ao vivo. Meu papel é preservar essa intimidade em escala colossal", explica a artista.

Além dos espetáculos musicais, Devlin desenvolveu projetos para desfiles de moda de grifes internacionais, produções teatrais e até cerimônias olímpicas, incluindo as edições do Rio 2016 e Londres 2012. Recentemente, porém, a britânica tem direcionado sua energia para trabalhos mais autorais, como a exposição "Sou o Outro do Outro", em cartaz desde 15 de março na Casa Bradesco, em São Paulo.

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Exposição imersiva convida o público a participar

A mostra paulistana reúne obras interativas que brincam com espelhos, sons e projeções, convidando os visitantes a se tornarem parte ativa da experiência. Os participantes podem levar "um fragmento" da exposição consigo ou contribuir com desenhos em longos rolos de papel branco. "Trabalhamos na fronteira do possível. Existe o impossível, que não podemos realizar por criar coisas físicas, e o possível, que não desejamos fazer porque já foi realizado. Nosso espaço é o limite do fisicamente exequível", detalha Devlin.

O processo criativo: entre a engenharia e a poesia

Em entrevista, a artista revela que seu trabalho exige não apenas ideias inovadoras, mas conhecimentos de engenharia, arquitetura e tecnologia. "Sou uma artista de Londres com uma prática bastante abrangente. Nos últimos dez anos, concentrei-me em instalações para instituições como a Tate Modern, mas também atuo em teatro, música e eventos globais", afirma.

Questionada sobre como alguém desenvolve tal carreira, Devlin responde: "Acredito que sendo presente. Quando criança, tocava música e desenhava muito, mas meus professores quase desistiram de mim porque eu não queria me especializar. Existe essa expressão em inglês, 'jack of all trades' (pau para toda obra), e você pode ser chamado de 'mestre de nada'. Eu percebi que era exatamente isso que desejava: estar entre tudo, como uma dobradiça, um corredor. É um lugar muito rico para se viver".

Do estádio à galeria: a conexão com o público

A artista vê uma continuidade fundamental entre criar para multidões de 75 mil pessoas em estádios e para indivíduos em exposições intimistas. "Vejo toda performance e toda obra de arte como algo de autoria do público. Uma pintura não existe a menos que alguém a observe. Há uma grande ligação entre este trabalho aqui e uma peça para estádios", reflete.

Seu processo inicia sempre com um convite para encontrar "terreno comum". "Ao ser convidada para a Casa Bradesco, fui convidada para um novo país, cultura e comunidade. Pesquiso e aprendo a linguagem desse edifício, dessa cidade. Busco interseções entre minha experiência e a vida do Brasil, de São Paulo. O mesmo ocorre com 'Hamlet' ou Beyoncé: há sempre uma linha de investigação sobreposta", descreve.

Prazos variados e adaptações rápidas

Os cronogramas de trabalho variam enormemente. "Para 'Tristan & Isolde' na Met Opera de Nova York, comecei há quatro anos. Esta exposição demandou 18 meses. Já a turnê da Lady Gaga para o Coachella: recebi a ligação em fevereiro e o show estreou em abril", exemplifica. Sobre o espetáculo de Gaga no Brasil, revela: "Não houve adaptações. Foi exatamente a mesma estrutura que usamos no Rio, apenas duas semanas depois".

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Celulares nos shows: uma reflexão filosófica

Questionada sobre o impacto dos smartphones na experiência dos espetáculos, Devlin oferece uma análise profunda: "Lembro-me de 2007, após o lançamento do iPhone. Olhei para a arena e vi centenas daquelas telinhas. Quando era jovem, as pessoas acendiam isqueiros, algo elementar. Agora, o aparelho parece ser o público e o braço humano um mero periférico".

"Penso muito sobre 'centauros': inteligência humana ampliada pela tecnologia versus 'centauros reversos', onde a máquina comanda e o humano é apenas um periférico de carne. Temos que escolher o que queremos ser. Por que gravamos? Não é para nós, nunca reassistiremos tudo. É para o futuro? É vício capitalista ou algo mais profundo, como deixar rastros para seres futuros diante de possíveis extinções? Não tenho respostas, mas reflito muito sobre isso", pondera.

Apesar dessa reflexão, a artista afirma não deixar que isso influencie diretamente seu processo criativo. "Penso, como sempre, em como comunicar intimidade em grande escala. Como capturar a verdade do que se tenta transmitir. Nesta exposição, escrevi histórias sobre experiências pessoais: um livro que li, um quase-afogamento, um dançarino que conheci. Em um show pop é similar: alguém transformou vivência em música, as pessoas ressoaram e compraram ingressos. Busco manter essa intimidade na escala monumental. Não me preocupo com como ficará nas câmeras, mas com como você se sentirá", finaliza.