Advogado brasileiro transforma paixão pela Rússia em autobiografia ilustrada
Saul de Moraes Bonilha Filho, um advogado internacionalista de 75 anos nascido em São Paulo, acaba de lançar a autobiografia O Puro Indizível pela editora P55. A obra reúne seis décadas de paixão pela cultura russa, documentada através de uma coleção pessoal de peças artísticas e memórias de viagens ao país.
Origens da paixão em um bairro paulistano
Criado em uma rua onde todas as famílias vizinhas eram de origem russa, Saul desenvolveu desde cedo um fascínio pelo país. "Eu cresci ouvindo histórias dos vizinhos sobre a Rússia, principalmente sobre o Império dos czares e a Revolução de 1917", relata o autor. Aos 12 anos, uma vizinha que só falava russo despertou ainda mais seu interesse, culminando no início de sua coleção com um ícone religioso ortodoxo.
Desafios para formar uma coleção no Brasil
Montar uma coleção de arte russa no Brasil mostrou-se uma tarefa complexa. "Eu ia às igrejas ortodoxas e perguntava aos padres se alguém tinha ícones para vender, mas esses itens não são feitos para comercialização", explica Saul. Seu primeiro item adquirido foi um samovar, tradicional chaleiro russo, que exigiu a ajuda de várias pessoas para ser comprado.
Entre as peças mais especiais de sua coleção atual está uma mesa com tampa de malaquita, mineral raro encontrado apenas na Rússia e na Tanzânia. "É muito difícil de achar, mas é lindo", orgulha-se o colecionador, que afirma ter comprado recentemente uma cartilha como seu último item.
Viagens à Rússia e impacto dos conflitos atuais
Saul visitou pela primeira vez a Rússia ainda na época da União Soviética, na década de 1980, acompanhado de seu irmão. Desde então, retornou diversas vezes, mas interrompeu as viagens desde a pandemia de 2020. "Pretendo voltar apenas quando acabar a guerra na Ucrânia", planeja o advogado, citando dificuldades operacionais como o uso limitado de cartões internacionais.
Sobre a situação atual do país, Saul observa: "A censura era muito grande na época da URSS. Hoje ainda existe censura, mas é diferente. Não conseguimos saber qual é o alcance real da informação que eles têm".
Processo criativo e decisão de publicar
A autobiografia inclui não apenas imagens da coleção, mas também fotografias tiradas pelo próprio Saul durante suas viagens. O autor, que sempre manteve diários e anotações, decidiu compartilhar suas experiências após refletir sobre o propósito de suas memórias. "Um dia me perguntei: 'Por que não compartilhar essas coisas?'. Resolvi dar corpo às minhas memórias e juntar tudo em um livro", conta.
Futuro da coleção e legado
Sem filhos, Saul ainda não decidiu para quem deixará sua valiosa coleção, mas garante que não pretende adquirir mais peças. Sua paixão pela arte russa, no entanto, continua viva através do livro, que serve como testemunho de décadas de dedicação cultural.



