Escritora da Baixada Fluminense é indicada ao prestigiado International Booker Prize
Ana Paula Maia indicada ao International Booker Prize

Escritora da Baixada Fluminense conquista indicação ao International Booker Prize

Nesta terça-feira (24), a literatura brasileira recebeu uma notícia de grande relevância internacional. Ana Paula Maia, escritora natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, foi oficialmente indicada ao International Booker Prize, um dos mais prestigiados e importantes prêmios literários do mundo. A autora, que deve lançar seu décimo livro ainda este ano, tem sua obra centrada no que ela mesma denomina "as bordas do mundo", explorando universos frequentemente ignorados pela sociedade.

Personagens que habitam as margens da sociedade

A narrativa de Ana Paula Maia se constrói através de personagens que desempenham funções essenciais, porém muitas vezes invisibilizadas. Lixeiros, coveiros, bombeiros e abatedores de animais povoam suas histórias, trazendo à tona realidades duras e complexas. No livro "Assim na terra como embaixo da terra", que foi considerado pela premiação, a autora adentra o ambiente carcerário, abordando as vidas de detentos e oficiais com uma profundidade que chama a atenção internacional.

Em entrevista exclusiva, Ana Paula Maia compartilhou sua trajetória como escritora, detalhou o fascínio por esses temas marginais e revelou o que considera o grande prêmio de sua carreira. A autora se autodenomina uma forasteira, explicando que se sente confortável em espaços estranhos e desconhecidos. Nascida em Nova Iguaçu, ela se mudou para Curitiba em busca de novos ares, encontrando na cidade fria e cinzenta um ambiente propício para sua criação literária.

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A escrita como canal de empatia e pesquisa

Ana Paula Maia destaca que sua escrita é profundamente guiada pela empatia e por um processo intenso de observação. "Quando eu começo um livro, eu não sei como ele vai terminar. Os personagens me levam, me guiam, estão comigo", afirmou a escritora. Essa conexão íntima com seus personagens permite que ela explore territórios complexos, como lixões, cemitérios, matadouros e prisões, com uma sensibilidade ímpar.

O livro indicado ao prêmio, "Assim na terra como embaixo da terra", nasceu como uma narrativa inspirada no gênero Western, conhecido por destacar a figura do forasteiro. A obra não se furta em abordar a violência de forma explícita, apresentando um jogo sinistro em uma colônia penal onde detentos são caçados como animais durante as noites de lua cheia. Para construir essa trama, Maia realizou uma extensa pesquisa, incluindo a leitura de "Vigiar e Punir", de Michel Foucault, e a análise de reportagens sobre o sistema carcerário.

"Conforme eu fui avançando no processo de pesquisa do sistema carcerário, eu comecei a perceber que é impossível você falar do sistema carcerário sem falar de escravidão", explicou a autora. Essa reflexão deu origem ao título do livro, que faz uma alusão à oração do "Pai Nosso", ilustrando como as violências do presente estão sobrepostas a histórias passadas e corpos enterrados.

Reconhecimento que vai além dos prêmios

Para Ana Paula Maia, a maior gratificação de sua carreira não vem necessariamente das indicações a prêmios internacionais. Ela relatou, com emoção, o caso de um presidiário que afirmou que seu livro mudou sua vida. "E disse que tinha um preso que estava sempre com um livro embaixo do braço. E aí ele chegou para essa pessoa que estava ali fazendo esse doc e falou: você precisa ler esse livro, porque esse livro mudou minha vida. E era o meu livro", contou a escritora.

Essa conexão humana é o que motiva seu processo criativo. "Eu acredito muito que o escritor, ele tem essa possibilidade de conectar", afirmou Maia. A indicação ao International Booker Prize foi uma surpresa positiva, especialmente porque o livro foi publicado no Brasil há nove anos, demonstrando como obras literárias podem renascer e ganhar novos significados em diferentes contextos e continentes.

A trajetória de Ana Paula Maia reforça o papel da literatura como instrumento de reflexão social e empatia, colocando o Brasil em evidência no cenário literário mundial através de narrativas poderosas e necessárias.

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