A escritora Ana Paula Maia cultiva há 23 anos um gênero incomum no Brasil: o terror literário. Agora, o International Booker Prize, um dos prêmios mais prestigiosos do mundo, pode torná-la a primeira vencedora latino-americana. Ana Paula é uma das finalistas da premiação com o romance "Assim na terra como embaixo da terra".
A brasileira concorre com: Shida Bazyar (Alemanha), Rene Karabash (Bulgária), Daniel Kehlmann (Alemanha), Marie NDiaye (França) e Yáng Shuāng-zǐ (Taiwan). Publicado em 2017, o livro explora a vida de pessoas que trabalham à margem da sociedade brasileira.
Obra brutal e hipnótica
O júri descreveu a obra como "uma novela curta brutal, inquietante e hipnótica ambientada em uma colônia penal remota no Brasil, onde os limites entre justiça e crueldade se confundem. Concisa, implacável e sem concessões". Maia, autora de sete romances, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura em dois anos consecutivos, com "Assim na terra como embaixo da terra" (2018) e "Enterre Seus Mortos" (2019).
Cerimônia e premiação
A obra vencedora será anunciada nesta terça-feira (19), às 18h, em uma cerimônia no museu Tate Modern, em Londres. O prêmio é de 50.000 libras (cerca de R$ 360 mil), dividido igualmente entre o autor e o tradutor. O Booker International Prize, que premia obras traduzidas para o inglês e completa dez anos, ainda não teve vencedores em língua espanhola ou portuguesa. Em 2025, o prêmio foi concedido à indiana Banu Mushtaq. Para esta edição, a comissão avaliou 128 obras, publicadas no Reino Unido entre maio de 2025 e abril de 2026.
"Nunca teve tanta gente caçando gente"
O júri descreveu o romance como "brutal, inquietante e hipnótico". Em apenas cem páginas, Maia narra os últimos dias de uma colônia penal brasileira, onde o diretor caça os detentos como animais. Há vísceras, sangue e homens que se movem entre a resignação e o desespero. A crueza, diz ela, não é pior que a do mundo atual. "Nunca teve tanta gente caçando gente", afirma por videoconferência de sua casa em Curitiba, no Paraná, em referência à experiência dos imigrantes.
Trajetória da autora
A escritora, de 48 anos, nasceu em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Filha de uma professora de literatura e de um dono de bar, cresceu assistindo faroestes de Sergio Leone e Clint Eastwood. Daí vem sua fascinação por personagens masculinos duros, como o protagonista Bronco Gil, fruto do estupro de uma indígena por um branco. Autora de sete romances publicados em países como Argentina, Alemanha, França e Itália, ganhou com este livro o Prêmio São Paulo de Literatura em 2018. A obra foi traduzida para o inglês e o espanhol.
Entrevista com Ana Paula Maia
O que significa ser finalista desse prêmio?
Ana Paula: "Sempre estive na contramão da literatura brasileira, produzindo coisas diferentes, esquisitas. O terror literário não é uma tradição no Brasil, mas sim na Argentina, no Chile. Para quem faz esse gênero, chegar até aqui é grandioso. Agora a ficha está caindo."
A colônia penal funciona como alegoria do mundo exterior?
Ana Paula: "Sim, hoje acho que o livro representa o que vivemos. Vivemos tranquilamente numa colônia penal: sempre fugindo, tentando sobreviver, com perigos e injustiças."
A conexão entre prisão e escravidão foi proposital?
Ana Paula: "Quando pesquisei o sistema carcerário, foi impossível não associá-lo à escravidão. Um navio negreiro e uma cela de presídio são a mesma coisa, só muda a época. A população carcerária é majoritariamente preta. Não posso falar de sistema punitivo sem falar de quem foi massacrado."
A tradução para o inglês chega a um mundo diferente de 2017.
Ana Paula: "Acredito que faz mais sentido hoje. Nunca teve tanta gente caçando gente. Vivemos uma caçada humana, especialmente contra imigrantes. É muito maluco. Às vezes escrevo coisas que depois ocorrem. Escrevi 'Enterre seus mortos' antes da pandemia, e o livro tinha indícios do que viria."
Protagonistas exclusivamente masculinos: como constrói esse olhar?
Ana Paula: "Às vezes nos prendemos ao que supostamente devemos pensar. Se você é mulher, tem que pensar de um jeito. Isso faz parte do sistema que te esmaga. Eu trabalho com expansão de consciência. Quando escrevo, subo no alto de um prédio, de uma montanha. Embora termine cada livro esgotada, sinto saudade desse lugar. A cada dois ou três anos, volto a visitar Bronco Gil e Edgar Wilson [personagens recorrentes]. É minha família, onde volto para casa."



