Escritora fluminense Ana Paula Maia é finalista do International Booker Prize 2026
Ana Paula Maia finalista do Booker Prize 2026 com obra brasileira

Escritora fluminense Ana Paula Maia é finalista do International Booker Prize 2026

A escritora fluminense Ana Paula Maia, natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, foi anunciada nesta terça-feira (30) como uma das seis finalistas do International Booker Prize de 2026. O prestigiado prêmio literário britânico, que reconhece obras traduzidas para o inglês, divulgou a lista após uma seleção inicial de 13 semifinalistas revelada em 24 de fevereiro.

O romance que conquistou o júri internacional

Maia, de 48 anos, concorre com seu romance "Assim na terra como embaixo da terra", publicado originalmente em 2017 e traduzido para o inglês pela canadense Padma Viswanathan com o título "On Earth As It Is Beneath". A obra, que explora a vida de pessoas que trabalham à margem da sociedade brasileira, foi descrita pelo júri como "uma novela curta brutal, inquietante e hipnótica" ambientada em uma colônia penal remota no Brasil.

O júri destacou que a narrativa "confunde os limites entre justiça e crueldade", sendo "concisa, implacável e sem concessões". Além disso, ressaltaram que Maia, autora de sete romances, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura em dois anos consecutivos: em 2018 com "Assim na terra como embaixo da terra" e em 2019 com "Enterre Seus Mortos".

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Processo de seleção e premiação

A comissão avaliadora analisou uma seleção inicial de 128 obras, apresentadas por editoras e publicadas no Reino Unido entre 1º de maio de 2025 e 30 de abril de 2026. O vencedor será anunciado em 19 de maio, em uma cerimônia no museu Tate Modern, em Londres. O prêmio é de 50 mil libras (cerca de R$ 360 mil), dividido igualmente entre o autor e o tradutor da obra.

Vale destacar que o Booker International Prize, que completa dez anos em 2026 e premia obras traduzidas para o inglês, ainda não teve vencedores em língua espanhola ou portuguesa, o que torna a indicação de Maia ainda mais significativa para a literatura brasileira.

As bordas do mundo na escrita de Ana Paula Maia

A obra de Ana Paula Maia, que deve chegar ao décimo livro ainda este ano, concentra-se no que a autora chama de "as bordas do mundo". Seus personagens são, em geral, trabalhadores que lidam com o que o resto da sociedade prefere ignorar: lixeiros, coveiros, bombeiros e abatedores de animais. Em "Assim na terra como embaixo da terra", não é diferente – o livro se passa em uma espécie de prisão, abordando a vida de detentos e oficiais.

Em entrevista, Maia se definiu como uma forasteira: "Eu gosto de estar em um lugar estranho. É um sentimento que me deixa à vontade". Nascida em Nova Iguaçu, ela mudou-se para Curitiba para mudar de ares, descrevendo a cidade como "fria, cinza e quieta", combinação que aprecia. Essa perspectiva de forasteira guia sua escrita, permitindo-lhe adentrar, com as palavras, espaços como lixões, cemitérios, matadouros e prisões.

A violência e a pesquisa por trás da narrativa

Outra característica marcante da obra de Maia é a exploração da violência escancarada, inspirada em gêneros como o Western. Em "Assim na terra como embaixo da terra", ela descreve um jogo sinistro em que o agente responsável pela colônia penal, Melquíades, solta condenados em noites de lua cheia para caçá-los com um rifle. A autora explicou que seus livros geralmente surgem de "um tempo de observação e de incômodo com algo".

Para abordar o sistema carcerário, Maia realizou extensa pesquisa, desde a leitura de "Vigiar e Punir", de Michel Foucault, até reportagens sobre casos reais. Ela destacou: "Conforme eu fui avançando no processo de pesquisa do sistema carcerário, eu comecei a perceber que é impossível você falar do sistema carcerário sem falar de escravidão". Dessa ligação nasceu o título, que remete à oração do "Pai Nosso", ilustrando como as violências do presente acontecem sobre a história e os corpos enterrados daqueles que sofreram mazelas semelhantes.

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O impacto real além dos prêmios

Para Ana Paula Maia, há algo mais gratificante que prêmios: o impacto de sua escrita na vida das pessoas. Ela relatou, emocionada, que um presidiário disse que seu livro mudou sua vida, após receber o relato por meio de uma pessoa que produzia um documentário em uma prisão. "E disse que tinha um preso que estava sempre com um livro embaixo do braço. E aí ele chegou para essa pessoa que estava ali fazendo esse doc e falou: você precisa ler esse livro, porque esse livro mudou minha vida. E era o meu livro", contou.

A autora acredita que o escritor tem a possibilidade de conectar-se com os outros, e que os reconhecimentos "vêm depois". Sobre a indicação ao International Booker Prize, ela afirmou que foi uma boa surpresa, especialmente porque o livro foi publicado no Brasil há nove anos. "A vida do escritor tem disso. A gente publica um livro, às vezes 10 anos depois desse livro, ele é publicado num outro país, num outro continente, e ele começa uma nova trajetória e é descoberto num outro lugar. Então, assim, a ficha vai caindo aos poucos", refletiu.