70 anos de 'A Feira de Caruaru': música que imortalizou a cidade
70 anos de 'A Feira de Caruaru' imortaliza cidade

Poucas obras conseguem resumir tão bem a alma de uma cidade quanto 'A Feira de Caruaru'. Sete décadas após a primeira gravação, a música composta por Onildo Almeida continua atravessando gerações e transformando em melodia o cotidiano da maior feira ao ar livre do Nordeste. No momento em que Caruaru, no Agreste de Pernambuco, celebra 169 anos, o clássico permanece como uma espécie de retrato cantado da cidade. Mais do que uma canção, 'A Feira de Caruaru' se transformou em documento histórico, patrimônio afetivo e cartão-postal sonoro do município. Gravada inicialmente pelo próprio Onildo Almeida em 1956 e eternizada no ano seguinte na voz de Luiz Gonzaga, a música ajudou a projetar nacional e internacionalmente a feira que, como diz a letra, vende 'de tudo que há no mundo'.

A cidade que nasceu da feira

A relação entre a feira e a própria origem de Caruaru é, para historiadores, impossível de separar. Segundo o historiador José Urbano, a cidade surgiu justamente a partir da atividade comercial desenvolvida ao redor da antiga capela de Nossa Senhora da Conceição, construída em 1782. 'A feira é a gênese da nossa cidade. A posição geográfica e a vocação comercial são os dois fatores responsáveis pelo desenvolvimento econômico e social de Caruaru', explicou. A dinâmica local ainda guarda uma curiosidade rara: 'Do ponto de vista da sociologia, a cidade nasceu após a feira, quando geralmente é o contrário', disse José Urbano. Hoje, no entorno do Parque 18 de Maio, funcionam 14 feiras livres, entre elas a Feira de Artesanato, de Importados, de Flores, de Ervas Medicinais, de Couro e de Bolos e Doces. A principal delas, conhecida historicamente como Feira da Sulanca e referência nacional no comércio de confecções, passou a se chamar oficialmente Feira da Moda de Caruaru em setembro de 2025, após sanção de projeto de lei pela prefeitura. O espaço abriga ainda o Mercado de Carne, o Mercado de Farinha, a Casa da Cultura José Condé e a Casa Rosa, antigo matadouro municipal transformado em mercado cultural.

O baião que atravessou fronteiras

Foi observando esse universo popular, ainda na infância, que Onildo Almeida encontrou inspiração para escrever o baião que mudaria sua trajetória e a história cultural de Caruaru. O compositor relembra que percebeu que a feira tinha mais histórias do que cabiam na primeira versão da música. 'Quando eu aqui cheguei, eu disse: esse negócio está pequeno. De Caruaru tem mais o que dizer. Aí fiz mais duas estrofes e concluí a música', contou em entrevista à TV Asa Branca. A canção foi apresentada pela primeira vez na antiga Rádio Difusora de Caruaru, onde Onildo trabalhava como operador. Foi pelos corredores da emissora que Luiz Gonzaga ouviu a gravação e pediu para conhecer o autor. A frase dita pelo Rei do Baião virou quase uma lenda da música nordestina: 'Como é que você tem um negócio desse e não me amostra?'. Em 1957, Luiz Gonzaga gravou 'A Feira de Caruaru'. O disco vendeu 100 mil cópias em apenas dois meses e garantiu ao cantor o primeiro disco de ouro da carreira. Para Onildo, a parceria entre a música e Gonzaga foi decisiva para transformar a feira em referência cultural no país. 'Ela passou a ser famosa através da música. Quem não conhecia a feira teve o desejo de conhecer', afirmou o compositor. 'O Luiz Gonzaga foi muito importante na divulgação da feira lá fora', completou.

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'Vende de tudo'

A feira mudou de endereço ao longo dos séculos, cresceu e se modernizou, mas sem perder a essência popular descrita nos versos de Onildo. Em 2006, recebeu do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. 'Ela mudou um pouco. Mas não deixou de ser feira. Vende de tudo', resumiu Onildo. 'Quando tem uma coisa pra vender e não consegue, vai pra feira que você vende.' A própria música parece funcionar como um passeio pelas bancas do Parque 18 de Maio. Entre 'massa de mandioca', 'sorvete de raspa', 'bonecos de Vitalino' e 'fruta de parma', cada verso constrói uma fotografia sonora da cultura popular nordestina. Talvez por isso a canção nunca tenha conseguido tradução perfeita para outros idiomas. 'É uma música que não pôde ser traduzida porque são coisas que lá fora não tem', disse Onildo. 'Tem coisas que é só nossa.'

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A voz de uma cidade

Sete décadas depois da primeira gravação, 'A Feira de Caruaru' continua ecoando entre gerações como uma espécie de hino popular da cidade. O áudio original gravado por Onildo Almeida em 1956, em disco de 78 rotações, ganhou neste mês uma restauração e remasterização assinadas por Thiago Rad, levando novamente às plataformas digitais a primeira versão da música. Onildo Almeida, que completa 98 anos em 2026, soma mais de 500 músicas gravadas por artistas como Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Gilberto Gil e Chico Buarque. Patrimônio vivo da cultura pernambucana e doutor honoris causa, ele segue compondo e acompanhando a permanência de sua obra nas novas gerações. Sete décadas depois, a feira continua lotando corredores, espalhando cheiros, sotaques e mercadorias. E a música segue fazendo o mesmo. Em Caruaru, feira e canção parecem ter se tornado uma coisa só.

A Feira de Caruaru (Onildo Almeida)

A Feira de Caruaru
Faz gosto a gente ver
De tudo que há no mundo
Nela tem pra vender

Na feira de Caruaru
Tem massa de mandioca
Batata assada, tem ovo cru
Banana, laranja, manga
Batata doce, queijo e caju
Cenoura, jabuticaba
Guiné, galinha, pato e peru
Tem bode, carneiro e porco
Se duvidar inté cururu

Tem cesto, balaio, corda
Tamanco, gréia, tem cuêi-tatu
Tem fumo, tem tabaqueiro
Feito de chifre de boi zebu
Caneco alcoviteiro
Peneira boa e mé de uruçu
Tem carça de arvorada
Que é pra matuto não andar nu

Tem rede, tem balieira
Mode menino caçar nambu
Maxixe, cebola verde
Tomate, cuentro, couve e chuchu
Armoço feito nas torda
Pirão mexido que nem angu
Mobilha de tamburete
Feita do tronco do mulungu

Tem louça, tem ferro velho
Sorvete de raspa que faz jaú
Gelada, cardo de cana
Fruta de parma e mandacaru
Bonecos de Vitalino
Que são conhecidos inté no Sul
De tudo que há no mundo
Tem na Feira de Caruaru