Uma iniciativa transformadora, nascida da experiência pessoal de mães, está mudando a realidade de famílias em Birigui, interior de São Paulo. O projeto Mães 21, agora consolidado como lei municipal, oferece uma rede de apoio essencial para pais e responsáveis de crianças diagnosticadas com Síndrome de Down.
Da vivência à legislação: um acolhimento garantido
Criado a partir das histórias de mulheres que enfrentaram o susto e a insegurança após o diagnóstico de seus filhos, o Mães 21 se tornou uma política pública em Birigui. A legislação obriga que hospitais públicos e privados informem sobre o projeto sempre que um bebê nasce com a síndrome, assegurando que as famílias recebam acolhimento desde os primeiros dias de vida da criança.
Essa medida tem um objetivo claro: reduzir o impacto emocional do diagnóstico e aproximar os familiares de pessoas que já vivenciaram a mesma situação. Unidas pela maternidade e por experiências compartilhadas, essas mulheres demonstram que, embora o caminho possa ser desafiador, ele não precisa ser percorrido sozinho.
Uma trajetória de 11 anos e 68 mães unidas
A iniciativa completa mais de uma década de existência e atualmente reúne 68 mães da região noroeste do estado de São Paulo. Uma das histórias emblemáticas é a de Yasmin, de 13 anos, filha caçula da manicure Andreia. A adolescente, alegre e sorridente, nasceu com Síndrome de Down, mas o diagnóstico só foi confirmado após o parto, gerando incertezas na família.
Andreia relata que o medo inicial estava ligado principalmente à falta de informação e às possíveis complicações de saúde. No entanto, essa insegurança durou pouco tempo. Ela conheceu Luciana, mãe de Maria Fernanda, hoje com 16 anos e também portadora da síndrome. O encontro entre as duas mulheres foi decisivo.
Ao observar o desenvolvimento da filha de Luciana, Andreia se sentiu acolhida e mais confiante sobre o futuro da própria filha. A troca de experiências, que começou de forma espontânea, foi ganhando força e alcançando outras famílias, dando origem ao Mães 21 – nome que faz referência ao cromossomo extra característico da Síndrome de Down.
Escuta, orientação e apoio emocional
Atualmente, seis mulheres atuam diretamente no projeto, oferecendo:
- Escuta ativa e acolhedora
- Orientação prática sobre cuidados e direitos
- Apoio emocional contínuo
Os encontros promovidos pelo grupo facilitam a troca de informações, o compartilhamento de desafios e conquistas, e o fortalecimento dos vínculos entre as famílias. A experiência de quem já passou pelas etapas iniciais ajuda outras mães a compreenderem o diagnóstico de forma mais positiva e a estimularem o desenvolvimento das crianças desde cedo.
Os filhos também participam ativamente
Além das mães, as próprias crianças e adolescentes com Síndrome de Down participam ativamente do projeto. Maria Fernanda, por exemplo, acompanha a mãe em visitas, envia mensagens de áudio e se dedica a tranquilizar outras famílias.
“Eu vou com a minha mãe visitar as crianças, educo as crianças, pego a criança no colo. Eu mando áudio também, dou boa noite, e dou boa tarde. Eu deixo as mães mais tranquilas com as filhas”, ressalta Maria Fernanda, demonstrando como sua participação é valiosa.
Impacto psicológico e familiar
Segundo a psicóloga Loraine Cortelazzi, o apoio recebido logo após o nascimento faz diferença não apenas no desenvolvimento da criança, mas no bem-estar emocional de toda a família. Ter um canal direto com pessoas que já vivenciaram a mesma situação ajuda a reduzir o desgaste emocional e a construir uma rede de suporte contínua.
“Imagina você estar passando por um momento de dificuldade e até de desconforto emocional por conta do novo. Aí, você tem um canal direto para se comunicar com pessoas que passaram ou até estudaram sobre aquela dor, aquele momento que você está sentindo. Então, isso vai amenizar, com certeza, aquele desgaste emocional”, explica a especialista.
Olhar além do diagnóstico
Exemplos como o do Antônio, de cinco anos, filho da Renata, reforçam a importância do grupo. Ela conta que o convívio com outras famílias ajudou a enxergar além do diagnóstico e a focar na criança, em suas potencialidades e nas oportunidades que podem ser construídas ao longo da vida.
“O diagnóstico muitas vezes nos assusta. Porque nós não temos muita informação sobre a T21. Aliás, nós até temos, mas muitas dessas informações atreladas ao aspecto negativo. Então, conviver com essas famílias nos fortalece. Porque a gente troca essa experiência e a gente passa a olhar a criança e não o diagnóstico”, reforça a mãe, destacando a mudança de perspectiva proporcionada pelo projeto.
O Mães 21 se consolida, assim, não apenas como uma rede de apoio, mas como um movimento de transformação social que promove inclusão, acolhimento e esperança para dezenas de famílias em Birigui e região.