Mundo perde um dos maiores cineastas contemporâneos
O cinema internacional está de luto com a morte do diretor iraniano Abbas Kiarostami, ocorrida nesta segunda-feira (4) em Paris, aos 76 anos de idade. Considerado uma das vozes mais influentes da sétima arte nas últimas décadas, Kiarostami deixou um legado artístico que transcende fronteiras e gerações.
Trajetória e estilo marcante
Nascido em Teerã no ano de 1940, Kiarostami construiu uma carreira notável caracterizada por uma simplicidade narrativa profundamente poética. Seus filmes frequentemente exploravam histórias construídas a partir de gestos cotidianos, silêncios eloquentes e ambiguidades reflexivas, abandonando completamente as estruturas dramáticas convencionais do cinema comercial.
Esta abordagem única, que muitos classificam como contemplativa, pedia ao espectador uma observação mais atenta e paciente dos detalhes que normalmente passariam despercebidos. Seu trabalho foi fundamental para projetar o cinema iraniano no cenário internacional, especialmente a partir da década de 1990, quando suas obras começaram a circular com força nos principais festivais europeus.
Obras que marcaram época
A filmografia de Kiarostami é repleta de títulos aclamados pela crítica e pelo público:
- "Close-Up" (1990): Um filme que brinca com os limites entre ficção e realidade, transformando um caso judicial real em uma profunda reflexão sobre identidade, desejo e representação artística.
- "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" (1987): Parte da chamada Trilogia de Koker, este trabalho é celebrado por sua sensível abordagem da infância e das paisagens rurais do Irã.
- "Gosto de Cereja" (1997): A obra que lhe rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, abordando com delicadeza e coragem o tema da mortalidade e da decisão de um homem diante da morte.
- "O Vento nos Levará" (1999): Outro marco de sua carreira, explorando temas de vida, morte e a passagem do tempo com sua habitual maestria narrativa.
Características únicas de sua cinematografia
Além do estilo narrativo, Kiarostami era conhecido por várias escolhas artísticas consistentes:
- Uso de atores não profissionais, o que conferia uma autenticidade crua e comovente a seus personagens.
- Atenção especial às paisagens iranianas, especialmente estradas e ambientes rurais, que se tornaram quase personagens em seus filmes.
- Relação particular com o tempo cinematográfico, preferindo sequências prolongadas que incentivavam a reflexão em vez do ritmo acelerado.
- Influências multidisciplinares, já que também atuava como fotógrafo, poeta e artista visual, refinando sua precisão estética.
Legado duradouro
Quase uma década após seu falecimento, Abbas Kiarostami permanece uma referência absoluta para estudantes de cinema autoral, pesquisadores de linguagem cinematográfica e todos interessados na rica produção cultural do Irã. Sua capacidade de encontrar beleza e significado no aparentemente comum continua a inspirar cineastas ao redor do mundo, garantindo que sua influência na sétima arte seja, de fato, eterna.



