Wagner Moura reflete sobre autoritarismo e crise democrática em entrevista internacional
Em uma entrevista exclusiva concedida à renomada revista americana Variety, o ator brasileiro Wagner Moura abordou temas profundos como ditadura, democracia e o papel fundamental da arte em períodos de crise. Indicado ao Oscar de melhor ator por sua atuação no filme dirigido por Kleber Mendonça Filho, Moura traçou paralelos diretos e preocupantes entre o passado autoritário do Brasil e o atual cenário político dos Estados Unidos.
Alerta sobre a falta de experiência com regimes autoritários
O ator destacou que uma parte significativa do público americano não compreende plenamente o que significa viver sob um regime autoritário. "Vocês nunca tiveram a experiência de viver sob uma ditadura. Não sabem o que é isso", afirmou Moura, ao comentar a recepção de sua obra fora do Brasil. Ambientado nos anos 1970, o filme "O Agente Secreto" acompanha a história de Armando, um ex-professor perseguido pelo regime militar que tenta fugir com o filho enquanto a repressão se intensifica.
Para Moura, essa narrativa não se limita a retratar o passado, mas serve como um alerta urgente para o presente. Segundo ele, regimes autoritários raramente se impõem de forma abrupta; em vez disso, avançam gradualmente, muitas vezes sendo normalizados pela sociedade ao longo do tempo.
Origens do projeto e inquietações artísticas
O ator explicou que o projeto cinematográfico nasceu de inquietações profundas compartilhadas com o diretor Kleber Mendonça Filho. "Este é um filme que nasceu de como eu e Kleber nos sentíamos quando o Brasil estava sob esse tipo de governo fascista. De como nos sentíamos sobre nossos papéis como artistas", afirmou Moura, reforçando a dimensão política intrínseca à obra.
Ao longo da conversa, o ator demonstrou uma preocupação palpável com a fragilidade das democracias contemporâneas e com o impacto devastador da desinformação no debate público. Para ele, o problema central do mundo atual é a erosão dos fatos como base comum de discussão.
Crise dos fatos e fragmentação da verdade
"O que mais me preocupa na humanidade hoje é que não existem mais fatos. Fatos não importam mais", declarou Moura. Ele destacou que, no passado, as divergências políticas partiam de uma realidade compartilhada, enquanto hoje, as disputas não se baseiam em fatos, mas em versões distintas da verdade.
O ator citou como exemplo a fragmentação da informação nas redes sociais, onde diferentes grupos recebem narrativas completamente distintas, exacerbando polarizações e dificultando o diálogo democrático.
Resposta insuficiente das instituições democráticas
Moura também comentou o que percebe como uma resposta inadequada das instituições democráticas diante de ameaças autoritárias, especialmente nos Estados Unidos. "Sinto que os Estados Unidos e suas instituições não estão respondendo com a firmeza adequada - estabelecendo limites, fazendo com que as pessoas enfrentem consequências", disse ele, expressando preocupação com a falta de ações decisivas para proteger a democracia.
Além de "O Agente Secreto", o ator lembrou sua participação no filme "Guerra Civil" (2024), uma distopia que imagina um conflito interno nos EUA a partir de uma radicalização política extrema. Para Moura, a ficção tem servido como um espelho crucial de um mundo cada vez mais instável, oferecendo reflexões valiosas sobre os perigos que ameaçam as sociedades livres.