A técnica de animação 'em dois' que explica a estética única de 'Guerreiras do K-Pop'
Técnica 'em dois' explica estética de 'Guerreiras do K-Pop'

A estética única de 'Guerreiras do K-Pop' e a técnica de animação que a explica

A estética do grande sucesso de animação "Guerreiras do K-Pop", indicado ao Oscar de Melhor Animação e Melhor Canção Original, chama atenção por seus movimentos menos fluidos, quase travados, que lembram stop-motion. O que pode parecer erro na verdade é uma escolha estética deliberada: o filme utiliza a técnica de "animar em dois", que repete quadros e cria rupturas rítmicas específicas.

O que é animação 'em dois' e por que ela funciona?

Em entrevista ao g1, o artista animador de personagens 3D Marcelo Zanin, com mais de 15 anos de experiência e que trabalhou na equipe da Sony Pictures Animation em "Homem-Aranha: Através do Aranhaverso", explica que animar em dois não é uma invenção recente. "Na verdade, isso não tem nada de novo. A animação tradicional sempre foi feita dessa maneira", afirma Zanin.

Ele detalha que tradicionalmente as animações em desenho à mão no século passado começaram com 24 frames por segundo por questões técnicas de sincronização de áudio, mas os animadores logo descobriram que podiam repetir quadros de dois em dois em cenas com menos movimento, criando 12 desenhos por segundo em vez de 24 sem afetar significativamente a percepção do espectador.

Como o cérebro processa essa 'crocância visual'

O neurologista João Brainer, da Associação Brasileira de Neurologia e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que cenas animadas em dois acionam um mecanismo natural de percepção cerebral. "A gente chama de 'coding perceptual'. É aquilo que o seu cérebro constrói a partir de pequenos elementos e cria automaticamente uma sensação de compensação", afirma Brainer.

Segundo ele, a animação em dois ativa um processo neurofisiológico chamado "interpolação processual", onde o cérebro precisa completar as imagens fragmentadas, gerando uma sensação de expectativa que se resolve rapidamente. "É uma ansiedade que se resolve muito rápido. Não dá tempo de gerar o sofrimento da ansiedade", completa o especialista.

O contexto histórico e o sucesso atual

Zanin traça uma linha histórica das últimas décadas para contextualizar o sucesso de animações como "Guerreiras do K-Pop". "A indústria busca estilos diferentes. A animação tradicional foi o que mais me inspirou. Daí veio o 3D com 'Toy Story' e foi se estabelecendo", relata o animador.

Ele observa que após períodos dominados por diferentes estilos - como a fase de comédia pós-"Shrek" e o retorno aos musicais com "Enrolados" - agora estamos em outra oscilação de demanda. "Aí agora a gente está nessa de novo, vai vir outra coisa. Então tem essas oscilações de demanda", contextualiza.

O fenômeno cultural das Guerreiras

Lançado no ano passado, "Guerreiras do K-Pop" se consolidou como um fenômeno cultural significativo. A produção da Sony Pictures Animation para a Netflix acompanha a história de um grupo feminino de cantoras pop que, nos bastidores, participam de batalhas sobrenaturais contra demônios que também têm vida dupla como integrantes de uma boyband.

Elogiado pela crítica por sua estética vibrante, coreografias complexas e respeito ao folclore asiático, o filme se tornou o longa original mais reproduzido na plataforma de streaming. Sete músicas da trilha sonora alcançaram o top 20 global do Spotify, com canções como "Golden", "Your Idol" e "How It's Done" transformando personagens fictícios em verdadeiras estrelas do K-Pop.

A técnica de animação em dois, portanto, não é apenas uma escolha estética, mas um elemento fundamental que contribui para a experiência única oferecida por "Guerreiras do K-Pop", combinando tradição animada com inovação visual e impacto neurológico calculado.