Ilustrador defende livro infantil recolhido por prefeitura após denúncia de erotização
Ilustrador defende livro infantil recolhido por prefeitura

O ilustrador do livro infantil “Presentes de Gregos”, Mário Cafiero, saiu em defesa da obra depois que exemplares foram recolhidos pela Prefeitura de Votorantim, no interior de São Paulo. A medida foi tomada no dia 23 de abril, após denúncias de que o material faria apologia à erotização. O livro, que reúne lendas gregas, estava sendo distribuído em escolas da rede pública municipal.

Defesa do artista

Em entrevista ao g1, Mário Cafiero, de 75 anos, explicou que a obra inclui trechos da “Odisseia”, clássico da literatura universal escrito por Homero, e que as ilustrações têm caráter lúdico e educativo. “As ilustrações servem como suporte para mostrar o mundo lúdico que a arte pode proporcionar a esse público. Privar os jovens do acesso ao livro é algo muito sério, porque a obra precisa ser vista pelo jovem como uma satisfação. Aliás, eu tenho um orgulho muito grande desse livro em particular, porque me dediquei muito a ele”, afirmou.

O artista, que já morou na Inglaterra e na França e viajou para a Grécia, destacou sua experiência em artes plásticas e no trato com figuras mitológicas. “Eu, principalmente, trabalho muito nessa linha. Inclusive, tenho uma pintura minha de um vaso grego, onde as pessoas aparecem levemente vestidas ou nuas. Afinal, estamos falando do berço da civilização”, disse.

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Cafiero mostrou-se perplexo com a polêmica. “Estou perplexo que um livro de temática grega, que reúne lendas gregas, esteja sendo boicotado por pessoas com um falso moralismo, ao que me parece. Uma perseguição ao quê? Porque, na verdade, um livro não se trata só das ilustrações. O livro é escrito para ser lido. Fico admirado porque a minha contribuição sempre foi muito séria e profissional, sempre buscando fazer um trabalho digno”, desabafou.

O ilustrador também criticou o uso excessivo da internet e o fácil acesso de crianças e adolescentes a conteúdos pornográficos. “Isso acontece inclusive com pessoas que talvez nem devessem estar vendo certos conteúdos. Elas ficam com o celular o tempo todo, em detrimento da educação infantil e juvenil. Existem conteúdos pornográficos e outras questões que deveriam ser debatidas dentro das famílias. Quando um pai ou uma mãe vive apenas no celular, a criança tende a seguir esse mesmo padrão”, pontuou.

Apelo ao diálogo

Ao final da entrevista, Cafiero fez um apelo para que o caso seja analisado “de uma forma mais aberta”. “A leitura é uma coisa maravilhosa, é uma viagem. É essa questão que eu coloco para vocês. Vamos dialogar em benefício da juventude, porque uma das coisas mais incríveis é quando a pessoa começa a entender o porquê das coisas. Então peço encarecidamente que vocês revejam esse caso de uma forma mais aberta. Afinal de contas, estamos no século XXI”, finalizou.

Visão de uma pedagoga

O g1 também conversou com Gisele Silveira, professora do Ensino Fundamental e moradora de São Roque (SP). Em contraponto, a pedagoga explicou que é necessário ter cuidado com aquilo que chega até as crianças, principalmente por meio dos livros e das ilustrações. “Hoje vivemos uma realidade em que algumas famílias são extremamente zelosas e cuidadosas com o que os filhos consomem, enquanto outras deixam tudo muito aberto, sem muitos limites ou acompanhamento”, explicou.

A pedagoga reforçou não concordar com ilustrações ou conteúdos inapropriados para determinadas idades, seja de maneira explícita ou implícita. De acordo com ela, “a infância precisa ser respeitada”. “Existem temas, imagens e situações que devem ser tratados no tempo certo, com maturidade e responsabilidade. Como educadora, acredito que nosso papel também é preservar a inocência, o desenvolvimento saudável e o cuidado emocional das crianças”, finalizou.

Sobre a obra

Segundo sites de venda do livro, de autoria de Elenice Machado de Almeida, a obra adapta histórias mitológicas para uma linguagem simples e bem-humorada, reconhecendo a importância da mitologia grega na formação do imaginário ocidental. O livro traz releitura da autora de “Pomo da Discórdia”, “O Canto das Sereias” e “O Gigante de Um Olho Só”. As ilustrações são do artista plástico e designer gráfico Mario Cafiero.

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As ilustrações da obra fazem referência aos personagens mitológicos. Em uma delas, aparece uma sereia com os seios à mostra. Em outra imagem, é possível ver parte das nádegas de uma personagem sentada. Há ainda uma segunda ilustração da sereia tocando um instrumento musical, também com os seios à mostra.

Posição da prefeitura

Ao g1, a prefeitura afirmou que lamentou o ocorrido e disse que está tomando as medidas necessárias para identificar os responsáveis e “evitar que este tipo de situação volte a acontecer”. O município não informou quantos exemplares foram distribuídos, quantos foram recolhidos e quantas unidades escolares receberam o material. O g1 apurou que ao menos as seguintes unidades receberam o livro: Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental (Emeief) Gilberto Santos; Emeief Izabel Fernandes Pedroso; Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental (Emef) Maria do Rosário; e Emef Izabel Ferreira Coelho. O caso ganhou repercussão nas redes sociais nos últimos dias, com críticas à distribuição e ao uso pedagógico do material.

Esclarecimento do Sesi

Os exemplares do livro “Presentes Gregos” foram selecionados a partir do catálogo da Editora Sesi-SP, com curadoria das áreas de Cultura e Educação da instituição. Ao todo, mais de 1,8 milhão de exemplares foram entregues gratuitamente para a rede pública em 422 municípios do estado. Em nota enviada ao g1, o Sesi esclareceu que a obra fez parte do projeto de incentivo à leitura “Para Ler e Crescer”, voltado para cerca de 600 mil alunos do Ensino Fundamental de municípios participantes dos programas PAR e Novo Olhar. No entanto, reforçou que não foi responsável pela distribuição direta às escolas.

Ainda conforme a nota, o livro foi classificado para o 5º ano do Ensino Fundamental, com o objetivo de ampliar o repertório cultural dos estudantes sobre mitologia grega, desenvolver habilidades de interpretação, oralidade e produção textual, além de estimular a criatividade por meio de atividades lúdicas relacionadas à obra. O Sesi também pontuou que as ilustrações inspiradas na arte clássica aparecem de forma simbólica e integrada à narrativa, para serem percebidas com naturalidade pelas crianças dessa faixa etária. Segundo a instituição, a escolha do catálogo teve como premissa dialogar com a realidade dos alunos e oferecer suporte prático aos professores. Como parte do programa, também foram desenvolvidas atividades pedagógicas voltadas aos educadores, com acesso ao descritivo das obras para aplicação em sala de aula, disponíveis no site do projeto. O Sesi informou ainda que, a partir do Termo de Adesão, documento que continha a quantidade e os títulos dos livros, além das respectivas classificações etárias e escolares, as prefeituras ficaram responsáveis pela logística de entrega às unidades de ensino. Por fim, a instituição reforçou seu papel como formadora e afirmou acreditar que a leitura é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento intelectual, emocional e social de crianças e adolescentes.

Quem é Mário Cafiero

Mário Cafiero é artista plástico, gráfico, diretor de arte, designer e ilustrador que vive na capital paulista. O pintor começou no ramo artístico aos 15 anos e soma 60 anos de carreira. Ao g1, o artista contou que já ilustrou outros livros de Lúcia Machado de Almeida, como “O Escaravelho do Diabo” e “As Aventuras de Xisto”, além de obras de outros autores. “Fiz vários livros com a Lúcia. Também trabalhei com outro grande amigo, Bartolomeu Campos de Queirós, que já é falecido. Fizemos belos livros infantojuvenis, como ‘Onde Tem Bruxa Tem Fada’. Fizemos também ‘Ararinha Azul’ e ‘A Árvore’”, conta.

Mário também trabalhou por muitos anos na Editora Ática e desenvolveu projetos com colegas do trabalho. Segundo o artista, uma de suas coleções, “Para Gostar de Ler”, se tornou um best-seller. Mário também ilustrou diversos livros da Coleção Vaga-Lume, voltada ao público infantojuvenil. Sua produção artística também inclui pinturas a óleo, como obras expostas no terceiro Salão de Artes Plásticas de Presidente Prudente e na Bienal Nacional de 1976.